segunda-feira, junho 26

Enquanto brigamos, o tempo passa

Enquanto brigamos, o tempo passa. O tempo que não espera, não volta, não nos compensa.
E enquanto insistimos em gastar o tempo, brigamos, arrumamos pretextos para discordar, lutar para sermos proprietários de todas as verdades, todas as razões, todas as coisas que não conseguimos sequer carregar, nas mãos nem na consciência.
E a morte nos aguarda. Nos espera no final do tempo, aquele tempo que tínhamos de sobra, mas preferimos gastar com brigas, fofocas e desunião.
Essa é uma realidade incontestável. O tempo passa e nos entrega a morte.
Não só as brigas consomem o tempo, é verdade. Mas, de todas as opções por vontade próprias, esta é uma forte candidata ao lugar de mais tola.
Não falo de discussões e lutas por direitos. Isso é outra coisa. E muita gente boa já utilizou seu tempo para que nós, briguentos, desfrutássemos das conquistas.
Falo de brigas por poder, vantagens, territórios, espaços, razões, tudo o que nos coloca em posição de destaque, ainda que pelo lado mais desprezível.
O ditado afirma: – Dou um boi para entrar numa briga, mas dou uma boiada para não sair. – fala muito de nós, briguentos. Vamos às últimas consequências para levar para casa o troféu, ou os chifres, não sei. E, nisso, o tempo passou. Juntamos mais alguns desafetos para a conta. E menos algum tempo para a vida.
E a morte nos aguarda. Não importa de que forma levamos a vida. Ainda assim, ela vai nos levar. E ainda assim, escolhemos desperdiçar o tempo, brigando.
Batemos no peito orgulhosos e dizemos: – Sou pavio curto! E morremos, independente do tamanho do pavio. Aliás, independente de qualquer tamanho que possa se comparar.
Meu palpite: Correr das brigas. Correr para valer. Só ficar, se for por justiça. Só brigar, se for pela vida. Qualquer vida.
A morte que nos aguarde, como é a sua tarefa. E o tempo, que passe com prazer, assistindo o melhor que vamos fazer de nossas vidas.

quarta-feira, junho 21

Não me provoque, utilize melhor o seu tempo

Você que gosta de uma boa briga, de uma discussão sem fim, de um motivo para sacudir a paz, já aviso logo que sou presa difícil, escorregadia, ágil.
Não caio fácil nas armadilhas da provocação, não tenho menor interesse em demonstrar força ou razão, não me desgasto fácil nem alimento egos famintos.
Você que, entre sorrisos e palavras espinhosas, tenta, a todo custo instalar uma crise, faz revelações alheias e, depois, displicentemente fala que foi sem querer, sinto muito te avisar que não vai rolar. Eu não pago nada por essa briga.
Não me provoque. Utilize melhor o seu tempo, sua criatividade, seu desejo de ser o centro das atenções. Eu gosto é de sintonia, de identificação, de colaboração, de dar risada junto.
Provocação é uma das maneiras mais infantis de chamar a atenção. Uma sucessão de cutucadas inconvenientes e de mau gosto, que acabam por provocar uma reação bruta… ou não. Eu, particularmente, ofereço o silêncio como resposta.
Não me rendo à provocação, não me vendo à vaidade de desbancar um provocador. O desgaste é sem sentido e, afinal, vencer um embate baseado na provocação, é como finalizar um jogo que não se aceitou jogar.
Você que perde o amigo mas não perde a piada, se for de bom gosto, conte comigo para rir junto e ainda pedir para repetir. Mas, se sua intenção for provocar para então diminuir ou humilhar, então prepare-se para receber uma silenciosa e gelada indiferença.
Não perca seu tempo, não busque motivos nos outros para deixar a sua vida mais emocionante ou vitoriosa.
Aprenda a provocar-se de forma mais inteligente. Proponha-se deixar de lado a malicia de provocações sem propósito e, ao menos tente, participar de trocas e convivências mais generosas, onde a razão está com todos, e ninguém precisa competir por ela.

segunda-feira, junho 19

Atenção por cortesia. Quanto vale?

Sabe aquela pessoa que está sempre com a torneirinha aberta, despejando tudo o que lhe vem à cabeça, sem sequer perguntar se quem lhe ouve, o faz por vontade ou obrigação?
E sabe aquela outra pessoa, que, por generosidade ou inabilidade, passa horas de sua vida ouvindo casos e histórias que não são seus e nem sequer faz parte, mas não consegue se desvencilhar?
A primeira, sabe que está obtendo atenção por cortesia. E não lhe importa isso. Ela quer falar.
A segunda, ouve igualmente por cortesia. Pode até se incomodar, mas aguenta firme. Ela entende que a primeira quer falar.
São conversas mediadas pela educação, pela delicadeza de não frustrar quem crê que precisa muito se comunicar, se esvaziar, desabafar.
Mas, quanto vale uma atenção por cortesia? Que nível de envolvimento é possível?
Tão frustrante quanto não ter quem nos ouça confissões e relatos, é também quem nos ouve com distância, distraído, só por cortesia.
Aquela conversa entrecortada, sem continuidade, onde chegamos a inventar detalhes mais emocionantes do que os reais, somente para prender nosso ouvinte escolhido.
Quanto vale uma conversa vazia? Quanto vale alguém te olhando fixamente, sem em nada prestar atenção, apenas aguardando a sua vez de falar?
A gente costuma dizer que é conversa de maluco. Um divagando sobre a origem da vida e o outro, montado em sua bicicleta imaginária, percorrendo campos bem longe dali.
E, ao final, aquele tempo passado juntos, mais os afastou do que qualquer outra coisa.
Atenção é coisa séria e uma prova delicada de amor. Se formos capazes de atender integralmente às necessidades de alguém que tem algo a nos dizer, ainda que o assunto não nos interesse; se soubermos nos colocar no lugar do outro diante da urgência de um desabafo; Então, a mera cortesia dará lugar à empatia, e, sem julgamentos nem cansaço, estaremos aptos a dar a atenção que tanto gostamos de receber e não hesitamos em cobrar dos outros.
A cortesia pode ser guardada para outras ocasiões.

Não mendigue o amor de ninguém, nem desperdice o seu

Amor é ato espontâneo. Mal percebemos quando começa, não exercemos qualquer controle, nem tampouco definimos a intensidade.
Há alarmes falsos, certamente. O que se pensava ser amor, era somente um foguinho que logo apagou. Ou, uma fantasia tão perfeita, que ousou o lugar do personagem real. Mas, isso não conta como amor.
Amor é encontro, encaixe, despertamento de atitudes recíprocas, de cuidado e carinho.
Quem só quer receber amor, não está muito interessado em amar.
Quem implora a alguém que aceite o seu, um dia cobrará a devolução.
Não existe amor negociado, nem combinado. Alguns fatores contribuem – a admiração, o respeito, o carinho, a amizade- mas eles já são a expressão do amor nascendo.
O amor encontra caminho em qualquer passagem, encontra alimento em qualquer ambiente, mas só fica e cresce onde é recíproco.
Quem ama e não é amado, acaba por desistir do amor.
Quem leiloa seu amor, o vende por um lucro que nunca receberá.
Amor suplicado é um caldo amargo de piedade, que envenena quem o recebe. Amor inflacionado é produto falsificado, que ilude quem o arremata.
Não se deve implorar o amor de ninguém. Não se pode utilizar como moeda de troca. A indiferença é, talvez, a maior expressão do amor que se retirou. Diante dela, viramos mendigos de um amor que jamais será espontâneo. E, ao mesmo tempo, sucateamos o nosso amor, desesperadamente, em troca de nada.
A dor de um amor não correspondido, a gente supera. É da vida, acontece. Mas, transformação do amor-próprio em mendigo e escravo de outro amor, mata pouco a pouco a capacidade de amar novamente.
Antes que isso aconteça, o melhor é aceitar, desejar boa sorte e se despedir. Não desperdiçar uma gota do amor que a gente tem, e sim, oferecê-lo nas boas trocas que a vida sempre propõe.

domingo, junho 18

Desfrute do caminho. A chegada é mera ilusão.

A jornada pode ser dura, mas é o caminho que mais nos torna experientes e nos ensina a vida. Não importa de onde se sai.
Basta um passo para não estar mais no mesmo lugar. O caminho vai se mostrando, aos poucos, aliado ao ritmo do tempo. A chegada é objetivo, mas nem sempre é tudo o que foi esperado.
Enquanto isso, o caminho segue nos preparando surpresas, sustos, encontros e despedidas. Se houver janela para apreciar a paisagem, bom. Se não, ainda assim temos a imaginação, a criatividade que a tudo pode dar vida.
Durante o caminho, aprendemos muito. A conviver com a ansiedade; a compartilhar o tempo com desconhecidos, que, dependendo do tempo passado juntos, tornam-se gratos conhecidos; a deixar para trás o que não vale carregar; a considerar que a chegada pode frustrar expectativas.
O caminho é sábio. Nos distrai com o novo, nos concentra para os perigos, nos junta por afinidades, nos separa por diferenças. Na chegada, sem movimento, tudo pode embolar novamente.
Quando a gente imagina uma viagem, certamente na chegada não chove, o sapato não arrebenta, as pessoas que nos recebem são fofas, a comida é excelente, a hospedagem, fantástica. Quem já fez pelo menos algumas viagens na vida, sabe que expectativa e realidade são times opostos no campo. Desejamos o melhor, tanto que nos frustramos.
E, no caminho, temos a chance de ajustar os níveis, de aceitar o que de fato podemos encontrar, ou, sem nenhum demérito, dar meia volta e retornar.
O caminho das relações humanas ensina da mesma forma. Queremos chegar ao cume, ao ápice de uma parceria, à excelência. E, para isso, tentamos cortar caminho. Então, perdemos a chance de aprender, interpretar, ajustar a velocidade para não nos machucar.
Na chegada, desilusão.
A vida é o caminho em círculos, que nos chacoalha nas curvas. Não há uma chegada única, não há um ponto em que acaba o caminho. A cada conquista, uma chegada, já indicando por onde continua a nosso caminho.

domingo, junho 11

Infelizes ladrões de protagonismo

Eles, os ladrões, ainda que tenham os seus próprios momentos de estrelato, não se conformam nem toleram o protagonismo alheio.
Sabotam de todas as formas possíveis, não medem esforços para ocultar os papéis principais que não são seus, desmerecem, roubam a cena, fazem cena, ateiam fogo no palco.
Os ladrões de protagonismo são os que não sabem bater palmas, são exibicionistas, convencidos, egoístas, egóicos. Querem tudo para si sem se importar com consequências. São atropeladores de quem quer que seja, guiados pela cegueira da vaidade.
Há pais e mães que subtraem o protagonismo de seus filhos.
Há filhos que ignoram o protagonismo de pais e mães.
Há mestres que sonegam o protagonismo de seus alunos.
Há alunos que não reconhecem o protagonismo de seus mestres
Há pares que só são pares porque um dos pares cedeu, ainda que contrafeito, o protagonismo ao outro par, que ficou com tudo.
Há pares que negociam seus protagonismos por esmolas de amor.
Há amizades que disputam protagonismo.
Há colegas de trabalho cuja motivação é tão somente de conquistar todo o protagonismo disponível. Há chefes que fazem o mesmo.
Há de tudo. Há muita tristeza nessas afirmações. Um protagonismo roubado é uma moeda de três reais. Atrai atenção, ainda que nada valha.
O protagonismo é um momento tão poderoso quanto importante, que molda e modela os mecanismos de segurança e autoestima de uma criatura. É o instante em que os olhares convergem para quem, de fato, merece atenção e reconhecimento. Não há nada mais essencial do que se sentir protagonista das próprias escolhas!
Um ladrão de protagonismo não consegue suportar a ideia que não teve, a resposta que não deu, a decisão que não tomou, a criatividade que não brotou. E, quando alguém o faz, não hesita em tentar sufocar, ou, tomar para si.
Não há como adivinhar quando alguém tentará nos roubar o protagonismo, mas há como nos vigiar para não tentarmos, ainda que sem querer, abafar o protagonismo alheio.
E, para o caso de alguma tentativa de assalto, soem os alarmes! Nada mais válido do que chamar a atenção de quem tenta lhe roubar um momento feliz!

sexta-feira, junho 9

Tenho preguiça de quem tem sempre razão

Conversa boa é aquela em que a gente troca, ensina e aprende na mesma disposição. Conversa boa é aquela em que a gente pode falar de dúvidas elementares e defender teorias espetaculares.
É a conversa que nutre, que a gente sai feliz por conhecer quem participou do bate papo.
Mas, e a conversa com quem tem sempre razão? Com quem vai aumentando a voz e trincando os dentes a cada contrariedade que sofre com o discurso alheio? Essa conversa, na boa, é daquelas de pedir licença para ir ali e não voltar mais.
A conversa com quem odeia tudo o que você diz que gosta. E justifica com argumentos que sugerem que você é uma pessoa inteiramente idiota.
A conversa com quem, na saída, já manda o “você não está entendendo”.
A conversa que se apoia no mau deboche (porque o bom deboche, é divertido).
A conversa com aquela figura que afirma que você não pensa o que acabou de dizer.
Gente, qual o propósito da comunicação, então? Me perdi.
Tenho uma preguiça cataléptica dessas conversas. Deve parecer covardia, falta de argumentos, aceitação da verdade alheia, mas não, é preguiça. É desânimo. É desconforto.
E a dó que a gente sente? Porque dá dó ver uma pessoa tão cega de razão. Ela fica cega mesmo! E brava! Porque defender a sua razão lhe custa batalhar pelo silêncio da plateia. E pelas palmas e ovações, que geralmente nunca chegam.
Eu tenho uma estratégia para essas situações. Nem sempre funciona, porque existem as provocações, as alfinetadas, os cutucões. Mas, na medida do possível, vou me calando, me distanciando, me esgueirando por outros pensamentos e paisagens, até que me faço parte nula da conversa, deixando clara e delicadamente que não tenho interesse em participar.
É bom fazer silêncio para deixar o outro ouvir a sua própria voz. Às vezes, dá certo, mesmo sem razão.