terça-feira, julho 25

Não prenda seu rabo na porta de ninguém

Não se deixe enjaular, amordaçar, assediar. Não seja objeto de barganha. Toda forma de relacionamento é bem-vinda, se for pautada na liberdade.
Ter o “rabo preso”, em qualquer poste, porta ou pé de mesa que seja, significa que a relação não é justa.
Ou vai definhar e morrer, ou vai virar algo muito pior, baseada em ódio e rancor.
Os encontros da vida não podem impor condições, não devem encarcerar ninguém, moral ou fisicamente.
Não aceite nenhuma condição em que fique devendo obediência. Não permita que a gratidão seja imposta. Não prenda o seu rabo na porta de ninguém.
Se é verdade que, pela evolução da espécie, perdemos nossas caldas que balançavam conforme nossos humores, de fato ainda temos um resquício delas, por onde tentam nos prender, nos puxar de volta, manipular, e até nos mutilar.
A intenção da analogia não é depreciar, mas ilustrar como permitimos, sem nos dar conta, que nos controlem e causem ferimentos profundos.
Ninguém é dono de ninguém. A coisa só é boa quando somos livres. Se for para tocar, que seja com carinho, com prazer, com consentimento. Tocar o corpo, tocar a alma.
Atenção, portanto, com o nível de confiança mínimo que uma relação precisa manter. De nada adiantam as melhores intenções numa confissão, se ela cai em ouvidos maldosos, se a entrega cega se transforma em visível cárcere.
O amor é lindo, de fato é. E qualquer coisa que não liberte e eleve uma vida a outro nível, não é amor. É rabo preso numa porta prestes a bater.

quinta-feira, julho 13

Escuta, nem todo silêncio é falta do que dizer

Assim como nem todo discurso é importante, nem toda música emociona, nem toda buzina abre o caminho, nem todo grito é ouvido.
Nem todo silêncio é falta do que dizer. O silêncio é comunicação poderosa. Intriga quem aguarda a mensagem explícita, assusta quem não sabe interpretar, alivia quem não tinha intenção de dar retorno.
Meu silêncio não é estupidez, não é dúvida nem temor. Meu silêncio, na maioria da vezes, é cansaço, exaustão. É uma nítida sensação de que as palavras não alcançaram a intenção, e, no contexto, foram condenadas a repetirem-se eternamente, sem trazer mais nenhum sentido.
Meu silêncio é protesto. Contra as conversas vazias, contra as fofocas doentias, as críticas maliciosas, as conclusões passionais.
Meu silêncio é recusa. Recusa a repetir os assuntos do momento, as discussões de ódios e paixões políticas, os ataques e defesas individuais. Recusa também a compartilhar as notícias infelizes, as tragédias vizinhas, a insanidade em que o mundo mergulhou.
Meu silêncio é grito! Grito de rompimento com o que não me cabe mais. Grito de liberdade com o que não interessa mais. Grito de alívio com o ponto final de uma discussão.
Escuta o que cada silêncio quer dizer. O seu silêncio, o silêncio que chega até você. Se antes o barulho resolvia, e agora não resolve mais, faz silêncio.
Faz silêncio ainda que a insistência seja incansável. A razão não costuma acompanhar quem rompe o silêncio somente por provocação. Quem aparece, quase sempre, é o arrependimento.
Escuta o que o silêncio do outro quer te dizer. Pode até não ser o esperado, mas dito, poderia ser pior.


Escuta a resposta da vida que os silêncios trazem. No meio de várias negativas aos nossos pedidos e esperanças, estão misturados os aceites, as desculpas, os convites e inspirações que só se ouve quando tudo está em silêncio.

Melhor levar a vida cantando do que xingando

A vida sempre apresenta impasses. Direita ou esquerda, confiar ou desconfiar, esperar ou mandar passear…
Muita, mas muita coisa nos irrita. Esperar por decisões alheias é uma delas. Aceitar decisões alheias, das quais não concordamos, outra. Conviver com decisões alheias que nos afetam diretamente, nossa!
Mas o novelo precisa ser desenrolado. A vida segue, e como sempre, com pressa. Nessa hora, a escolha é nossa: De que forma resolver a vida? Eu, particularmente, vejo mais vantagem em resolver a vida cantando do que xingando.
O jogo sempre será de “ganha e perde”, e a gente precisa ser flexível. Tentar resolver tudo no grito, não dá. Na manha, não funciona. No choro, menos ainda. O que já deu certo uma vez ou outra, não dará certo para sempre, isso é fato.
Como faz, então? A expectativa era uma, a realidade veio e bagunçou tudo. A vida acontece em dominó e a gente não resolve nada sozinho. Não adiantar chegar de voadora na porta. É hora de chamar a inteligência e bolar uma boa estratégia para resolver a vida.
Separar o que é possível resolver; conformar-se com o que ainda não dá nem para mexer; Apressar-se no que já é projeto para realizar. E fazer tudo isso, na boa disposição, contornando sempre as dificuldades, pedindo ajuda, se preciso, mudando a rota, quando necessário.
Para lidar com gênios difíceis, muita educação e firmeza. Se, na hora de um embate, a gente cisma de evocar o nosso pavio curto também, a explosão é certa, e o resultado, todo mundo com a cara queimada.
Se o que atravanca é falta de atitude, é sempre bom dar uma revisada no traçado. Se estivermos parados por muito tempo no mesmo lugar, a vida não está funcionando. Melhor dar a partida de novo, e seguir, ainda que em outra direção e deixando coisas para trás.
É para frente que se anda, sempre. E o tempo não perdoa, empurra. Melhor então, sempre, levar a vida cantando, do que xingando.

O que aprendo com um vizinho barulhento

Aprendo todos os dias que tolerância tem limites.
Reforço mentalmente a certeza de que gritar não educa, não resolve, não diverte, não garante poder, não prova razão.
Descubro que vontade de ir para longe dali, pode se transformar em meta de vida.
Um vizinho barulhento pode morar dentro da casa da gente. O nível de incômodo é tanto, que ele parece sempre estar sentado na beira da cama, cantando, repetindo mil vezes o mesmo refrão, fazendo sua versão particular para um jingle, imitando Fred Flintstone.
O vizinho barulhento não se conforma só com sua própria voz. Ele acha pouco. Então, arrasta móveis, deixa cair de tudo no chão, traz vinte amigos para seu apartamento num domingo a noite, assiste ao futebol urrando e batendo com o pé no chão. No chão não, na minha cabeça.Se tem um cachorro, provoca-o até que o bicho não pare mais de latir e pular pelo apartamento.
Se tem filhos, desde cedo os ensina a arte dos gritos, dos brinquedos jogados no chão com força, das bolas na parede, do concerto com o pianinho às duas da manhã, dos arrotos barulhentos.
Se tem filhos e cachorros, aprendo que os incomodados realmente devem se mudar o quanto antes.
O vizinho barulhento é ainda mais insuportável, se comparado a vizinhos conscientes. Nessa hora, não há nada que o defenda. E, se a tentativa é de suportar sem reclamar dia e noite, por graças, às vezes os vizinhos do prédio ao lado reclamam por mim. É, nessa hora aprendo que um ruído chega longe!
Ah, não deixo de aprender alguns palavrões diferentes quando o futebol é o tema do dia.
E, como se quisesse, mas não quero, aprendo também que o filho é dotado como o pai, coisa que ele repete junto à janela, para que eu não consiga esquecer, e lembre sempre que o encontrar no corredor.
Mas o danado é bonzinho, e, ao me encontrar na entrada, abre sempre um sorriso e cumprimenta com alegria. O que eu aprendo com isso? Que, ainda que eu não creia, um dia ele vai se mancar que alguém mora no apartamento de baixo.
Isso serve para vizinhos, amigos, amores, família, e todas as relações em que o barulho atrapalha a verdadeira mensagem que se quer passar.

terça-feira, julho 11

Dor. Ainda que não pareça, vai passar

Que tarefa mais difícil, a de acreditar que uma dor passará, justo naquele momento em que ela vem com tudo, e leva tudo o que poderia servir de consolo e esperança.
Qualquer dor, desde que doa, se apresenta como se viesse para ficar, para jamais nos deixar. Talvez, uma das sensações mais reais que possamos sentir. A dor nos despedaça. E, juntar os pedaços, nos parece sempre um ato impossível. A dor nos rouba as forças, o colorido, a porta para o futuro.
No tempo de dor, só o que alivia são os pequenos momentos de consolo, solidariedade, empatia. E como fazem diferença! Ainda que não afastem a dor, negociam uma trégua, nos arrancam alguns sorrisos e poucas esperanças.
Dor de perda, dor de remorso, dor de desamor, dor de corpo e de alma. Dores que irradiam e são capazes de nos transformar em algo que nunca fomos. Até essas passam. Embora não pareça, elas passam.
A dor só dura o tempo que a ferida tem para curar. O mais importante é deixar curar. Se a gente fica arrancando a casquinha, ela volta, muitas vezes, pior. E arrancar as casquinhas das dores é quase uma especialidade nossa. É querer a cura mas não deixar cicatrizar. É mexer no que já foi tão traumatizado e magoado. Contaminar aquilo que o tempo, pacientemente, se encarrega de finalizar.
A gente se agarra até às dores, não quer deixar passar. E depois reclama da vida amarga que sempre teve. É preciso deixá-las. As dores entram na nossa vida para cumprir um papel temporário. Muitas vezes ensinam, educam, noutras, derrubam, pisoteiam. E sempre doem! Mas passam. Um dia, passam.
E quando uma dor está indo, nada de chamá-la de volta. Nenhuma nostalgia cabe na partida de uma dor. O melhor a fazer é nos despedir, certos de que não será a última dor da vida, mas que também passará.

segunda-feira, julho 10

Guarde seus segredos se quiser, mas guarde muito bem os dos outros

Quem nunca teve a sensação de que era hora de revelar um segredo? Num dia, inconfessável. No outro, assunto público. A gente faz isso o tempo todo e nem se dá conta. Faz por vontade, por necessidade, por sobrevivência.
Mas a gente só tem direito de fazer com o que é nosso. Com o que é do outro, não. O segredo alheio contado é fofoca. É malícia, premeditação, sacanagem.
Quando alguém confessa ou conta algo íntimo que não quer tornar público, já aí está enfrentando uma dificuldade. A primeira, confiar. A seguinte, contar. E daí por diante, torcer para que seja guardado como prometido.
Tão importante quanto jurar, prometer ou fazer gestos com os dedos, é entender a importância de ter consigo uma informação que pertence a outra pessoa. É cuidar de um bebê. É responsabilidade, carinho, proteção.
Não importa qual é o segredo. Desde que não prejudique ou ofenda ninguém, é para ser guardado, até que venha a decisão de não ser mais segredo, tomada por quem lhe contou.
Tenho experiências incríveis, de segredos contados e esquecidos. Anos depois, quem os guardou os trouxe de volta para mim. Esses, não sobreviveram à minha própria história, morreram com o tempo. Mas que alegria saber que alguém os guardou com respeito. E, com respeito e gratidão, foi liberado de guardar como segredo.
É vital poder partilhar segredos. Guardá-los somente para si pode ser um peso muito grande. Se forem sofridos, tornam-se ainda mais, alimentados pela mesma consciência que os guarda e julga.
Aprendi isso em uma ocasião muito difícil da vida. Certa vez, fiz uma escolha muito perigosa, e, apesar de não ser segredo para ninguém, por muito tempo me debati entre o que deveria e o que queria fazer. Até que, como resposta da vida, me veio uma agressão física.
Em primeiro momento, decidi manter segredo. Segredo comigo. Ainda que confiasse em muita gente, temia ouvir a famosa frase: – Eu te avisei.
Esse segredo se tornou tão sufocante que, sem coragem de contar a uma só pessoa, um belo dia o contei a todos, tornando pública uma vergonha que já não cabia mais em mim.
Por isso, insisto: Guarde seus segredos se quiser, mas guarde muito bem os dos outros. Você nunca será capaz de avaliar o quanto isso poderá ajudar alguém.

sexta-feira, junho 30

Carisma, liberte o seu!

Carisma não se explica. Carisma é um olhar único, um jeito de falar, aquela atração que vira a cabeça da gente para olhar a pessoa, prestar atenção, encontrar beleza e encantamento em tudo o que ela faz.
A criatura carismática dispensa qualquer acessório. De nada precisa, somente da sua presença. É impressionante o poder do carisma.
E quem sabe, usa bem e a seu favor. E quem tem um carismático por perto, se deleita.
Carisma é coisa de gente gostosa. É aquele imã que atrai olhares e atenções, um filme que empolga do início ao fim.
Todo mundo tem um pouco que seja. Uns transbordam. Outros, sufocam o seu.
Eu creio que carisma é a expressão espontânea que a gente tem. Quanto mais genuína e individual, tanto mais visível. Quando a gente se reprograma, tenta se ajustar a modelos ou insiste em não se aceitar, o carisma fica invisível, insensível.
Carisma inventado é fácil de perceber. É maquiagem que escorre antes da festa começar. Quanto mais a gente resiste ao que é, menos mágica acontece e mais massa a gente se torna.
Carisma é o pó mágico que só cai nas cabeças que não desejam o chapéu dos outros. Que delícia é poder ser, agir, falar e se aceitar como é ou como está. A gente fica interessante! A gente então, exala carisma!
E que triste é ler e decorar toda a cartilha dos padrões de comportamento, preferências, moda, cultura e relacionamentos, e então, se espremer para se encaixar. É preciso deixar muitas coisas para trás, e com elas, o carisma, a cereja do nosso bolo. E bolo, diga-se de passagem, também não anda muito em alta nos padrões atualmente magérrimos.
Pessoalmente, tenho tentado o caminho de volta, buscando meu carisma perdido entre tantos outros sentidos e sentimentos exilados. Acho que vale muito a pena. Acho ainda que só valerá a pena, se for assim.

segunda-feira, junho 26

Enquanto brigamos, o tempo passa

Enquanto brigamos, o tempo passa. O tempo que não espera, não volta, não nos compensa.
E enquanto insistimos em gastar o tempo, brigamos, arrumamos pretextos para discordar, lutar para sermos proprietários de todas as verdades, todas as razões, todas as coisas que não conseguimos sequer carregar, nas mãos nem na consciência.
E a morte nos aguarda. Nos espera no final do tempo, aquele tempo que tínhamos de sobra, mas preferimos gastar com brigas, fofocas e desunião.
Essa é uma realidade incontestável. O tempo passa e nos entrega a morte.
Não só as brigas consomem o tempo, é verdade. Mas, de todas as opções por vontade próprias, esta é uma forte candidata ao lugar de mais tola.
Não falo de discussões e lutas por direitos. Isso é outra coisa. E muita gente boa já utilizou seu tempo para que nós, briguentos, desfrutássemos das conquistas.
Falo de brigas por poder, vantagens, territórios, espaços, razões, tudo o que nos coloca em posição de destaque, ainda que pelo lado mais desprezível.
O ditado afirma: – Dou um boi para entrar numa briga, mas dou uma boiada para não sair. – fala muito de nós, briguentos. Vamos às últimas consequências para levar para casa o troféu, ou os chifres, não sei. E, nisso, o tempo passou. Juntamos mais alguns desafetos para a conta. E menos algum tempo para a vida.
E a morte nos aguarda. Não importa de que forma levamos a vida. Ainda assim, ela vai nos levar. E ainda assim, escolhemos desperdiçar o tempo, brigando.
Batemos no peito orgulhosos e dizemos: – Sou pavio curto! E morremos, independente do tamanho do pavio. Aliás, independente de qualquer tamanho que possa se comparar.
Meu palpite: Correr das brigas. Correr para valer. Só ficar, se for por justiça. Só brigar, se for pela vida. Qualquer vida.
A morte que nos aguarde, como é a sua tarefa. E o tempo, que passe com prazer, assistindo o melhor que vamos fazer de nossas vidas.

quarta-feira, junho 21

Não me provoque, utilize melhor o seu tempo

Você que gosta de uma boa briga, de uma discussão sem fim, de um motivo para sacudir a paz, já aviso logo que sou presa difícil, escorregadia, ágil.
Não caio fácil nas armadilhas da provocação, não tenho menor interesse em demonstrar força ou razão, não me desgasto fácil nem alimento egos famintos.
Você que, entre sorrisos e palavras espinhosas, tenta, a todo custo instalar uma crise, faz revelações alheias e, depois, displicentemente fala que foi sem querer, sinto muito te avisar que não vai rolar. Eu não pago nada por essa briga.
Não me provoque. Utilize melhor o seu tempo, sua criatividade, seu desejo de ser o centro das atenções. Eu gosto é de sintonia, de identificação, de colaboração, de dar risada junto.
Provocação é uma das maneiras mais infantis de chamar a atenção. Uma sucessão de cutucadas inconvenientes e de mau gosto, que acabam por provocar uma reação bruta… ou não. Eu, particularmente, ofereço o silêncio como resposta.
Não me rendo à provocação, não me vendo à vaidade de desbancar um provocador. O desgaste é sem sentido e, afinal, vencer um embate baseado na provocação, é como finalizar um jogo que não se aceitou jogar.
Você que perde o amigo mas não perde a piada, se for de bom gosto, conte comigo para rir junto e ainda pedir para repetir. Mas, se sua intenção for provocar para então diminuir ou humilhar, então prepare-se para receber uma silenciosa e gelada indiferença.
Não perca seu tempo, não busque motivos nos outros para deixar a sua vida mais emocionante ou vitoriosa.
Aprenda a provocar-se de forma mais inteligente. Proponha-se deixar de lado a malicia de provocações sem propósito e, ao menos tente, participar de trocas e convivências mais generosas, onde a razão está com todos, e ninguém precisa competir por ela.

segunda-feira, junho 19

Atenção por cortesia. Quanto vale?

Sabe aquela pessoa que está sempre com a torneirinha aberta, despejando tudo o que lhe vem à cabeça, sem sequer perguntar se quem lhe ouve, o faz por vontade ou obrigação?
E sabe aquela outra pessoa, que, por generosidade ou inabilidade, passa horas de sua vida ouvindo casos e histórias que não são seus e nem sequer faz parte, mas não consegue se desvencilhar?
A primeira, sabe que está obtendo atenção por cortesia. E não lhe importa isso. Ela quer falar.
A segunda, ouve igualmente por cortesia. Pode até se incomodar, mas aguenta firme. Ela entende que a primeira quer falar.
São conversas mediadas pela educação, pela delicadeza de não frustrar quem crê que precisa muito se comunicar, se esvaziar, desabafar.
Mas, quanto vale uma atenção por cortesia? Que nível de envolvimento é possível?
Tão frustrante quanto não ter quem nos ouça confissões e relatos, é também quem nos ouve com distância, distraído, só por cortesia.
Aquela conversa entrecortada, sem continuidade, onde chegamos a inventar detalhes mais emocionantes do que os reais, somente para prender nosso ouvinte escolhido.
Quanto vale uma conversa vazia? Quanto vale alguém te olhando fixamente, sem em nada prestar atenção, apenas aguardando a sua vez de falar?
A gente costuma dizer que é conversa de maluco. Um divagando sobre a origem da vida e o outro, montado em sua bicicleta imaginária, percorrendo campos bem longe dali.
E, ao final, aquele tempo passado juntos, mais os afastou do que qualquer outra coisa.
Atenção é coisa séria e uma prova delicada de amor. Se formos capazes de atender integralmente às necessidades de alguém que tem algo a nos dizer, ainda que o assunto não nos interesse; se soubermos nos colocar no lugar do outro diante da urgência de um desabafo; Então, a mera cortesia dará lugar à empatia, e, sem julgamentos nem cansaço, estaremos aptos a dar a atenção que tanto gostamos de receber e não hesitamos em cobrar dos outros.
A cortesia pode ser guardada para outras ocasiões.

Não mendigue o amor de ninguém, nem desperdice o seu

Amor é ato espontâneo. Mal percebemos quando começa, não exercemos qualquer controle, nem tampouco definimos a intensidade.
Há alarmes falsos, certamente. O que se pensava ser amor, era somente um foguinho que logo apagou. Ou, uma fantasia tão perfeita, que ousou o lugar do personagem real. Mas, isso não conta como amor.
Amor é encontro, encaixe, despertamento de atitudes recíprocas, de cuidado e carinho.
Quem só quer receber amor, não está muito interessado em amar.
Quem implora a alguém que aceite o seu, um dia cobrará a devolução.
Não existe amor negociado, nem combinado. Alguns fatores contribuem – a admiração, o respeito, o carinho, a amizade- mas eles já são a expressão do amor nascendo.
O amor encontra caminho em qualquer passagem, encontra alimento em qualquer ambiente, mas só fica e cresce onde é recíproco.
Quem ama e não é amado, acaba por desistir do amor.
Quem leiloa seu amor, o vende por um lucro que nunca receberá.
Amor suplicado é um caldo amargo de piedade, que envenena quem o recebe. Amor inflacionado é produto falsificado, que ilude quem o arremata.
Não se deve implorar o amor de ninguém. Não se pode utilizar como moeda de troca. A indiferença é, talvez, a maior expressão do amor que se retirou. Diante dela, viramos mendigos de um amor que jamais será espontâneo. E, ao mesmo tempo, sucateamos o nosso amor, desesperadamente, em troca de nada.
A dor de um amor não correspondido, a gente supera. É da vida, acontece. Mas, transformação do amor-próprio em mendigo e escravo de outro amor, mata pouco a pouco a capacidade de amar novamente.
Antes que isso aconteça, o melhor é aceitar, desejar boa sorte e se despedir. Não desperdiçar uma gota do amor que a gente tem, e sim, oferecê-lo nas boas trocas que a vida sempre propõe.

domingo, junho 18

Desfrute do caminho. A chegada é mera ilusão.

A jornada pode ser dura, mas é o caminho que mais nos torna experientes e nos ensina a vida. Não importa de onde se sai.
Basta um passo para não estar mais no mesmo lugar. O caminho vai se mostrando, aos poucos, aliado ao ritmo do tempo. A chegada é objetivo, mas nem sempre é tudo o que foi esperado.
Enquanto isso, o caminho segue nos preparando surpresas, sustos, encontros e despedidas. Se houver janela para apreciar a paisagem, bom. Se não, ainda assim temos a imaginação, a criatividade que a tudo pode dar vida.
Durante o caminho, aprendemos muito. A conviver com a ansiedade; a compartilhar o tempo com desconhecidos, que, dependendo do tempo passado juntos, tornam-se gratos conhecidos; a deixar para trás o que não vale carregar; a considerar que a chegada pode frustrar expectativas.
O caminho é sábio. Nos distrai com o novo, nos concentra para os perigos, nos junta por afinidades, nos separa por diferenças. Na chegada, sem movimento, tudo pode embolar novamente.
Quando a gente imagina uma viagem, certamente na chegada não chove, o sapato não arrebenta, as pessoas que nos recebem são fofas, a comida é excelente, a hospedagem, fantástica. Quem já fez pelo menos algumas viagens na vida, sabe que expectativa e realidade são times opostos no campo. Desejamos o melhor, tanto que nos frustramos.
E, no caminho, temos a chance de ajustar os níveis, de aceitar o que de fato podemos encontrar, ou, sem nenhum demérito, dar meia volta e retornar.
O caminho das relações humanas ensina da mesma forma. Queremos chegar ao cume, ao ápice de uma parceria, à excelência. E, para isso, tentamos cortar caminho. Então, perdemos a chance de aprender, interpretar, ajustar a velocidade para não nos machucar.
Na chegada, desilusão.
A vida é o caminho em círculos, que nos chacoalha nas curvas. Não há uma chegada única, não há um ponto em que acaba o caminho. A cada conquista, uma chegada, já indicando por onde continua a nosso caminho.

domingo, junho 11

Infelizes ladrões de protagonismo

Eles, os ladrões, ainda que tenham os seus próprios momentos de estrelato, não se conformam nem toleram o protagonismo alheio.
Sabotam de todas as formas possíveis, não medem esforços para ocultar os papéis principais que não são seus, desmerecem, roubam a cena, fazem cena, ateiam fogo no palco.
Os ladrões de protagonismo são os que não sabem bater palmas, são exibicionistas, convencidos, egoístas, egóicos. Querem tudo para si sem se importar com consequências. São atropeladores de quem quer que seja, guiados pela cegueira da vaidade.
Há pais e mães que subtraem o protagonismo de seus filhos.
Há filhos que ignoram o protagonismo de pais e mães.
Há mestres que sonegam o protagonismo de seus alunos.
Há alunos que não reconhecem o protagonismo de seus mestres
Há pares que só são pares porque um dos pares cedeu, ainda que contrafeito, o protagonismo ao outro par, que ficou com tudo.
Há pares que negociam seus protagonismos por esmolas de amor.
Há amizades que disputam protagonismo.
Há colegas de trabalho cuja motivação é tão somente de conquistar todo o protagonismo disponível. Há chefes que fazem o mesmo.
Há de tudo. Há muita tristeza nessas afirmações. Um protagonismo roubado é uma moeda de três reais. Atrai atenção, ainda que nada valha.
O protagonismo é um momento tão poderoso quanto importante, que molda e modela os mecanismos de segurança e autoestima de uma criatura. É o instante em que os olhares convergem para quem, de fato, merece atenção e reconhecimento. Não há nada mais essencial do que se sentir protagonista das próprias escolhas!
Um ladrão de protagonismo não consegue suportar a ideia que não teve, a resposta que não deu, a decisão que não tomou, a criatividade que não brotou. E, quando alguém o faz, não hesita em tentar sufocar, ou, tomar para si.
Não há como adivinhar quando alguém tentará nos roubar o protagonismo, mas há como nos vigiar para não tentarmos, ainda que sem querer, abafar o protagonismo alheio.
E, para o caso de alguma tentativa de assalto, soem os alarmes! Nada mais válido do que chamar a atenção de quem tenta lhe roubar um momento feliz!

sexta-feira, junho 9

Tenho preguiça de quem tem sempre razão

Conversa boa é aquela em que a gente troca, ensina e aprende na mesma disposição. Conversa boa é aquela em que a gente pode falar de dúvidas elementares e defender teorias espetaculares.
É a conversa que nutre, que a gente sai feliz por conhecer quem participou do bate papo.
Mas, e a conversa com quem tem sempre razão? Com quem vai aumentando a voz e trincando os dentes a cada contrariedade que sofre com o discurso alheio? Essa conversa, na boa, é daquelas de pedir licença para ir ali e não voltar mais.
A conversa com quem odeia tudo o que você diz que gosta. E justifica com argumentos que sugerem que você é uma pessoa inteiramente idiota.
A conversa com quem, na saída, já manda o “você não está entendendo”.
A conversa que se apoia no mau deboche (porque o bom deboche, é divertido).
A conversa com aquela figura que afirma que você não pensa o que acabou de dizer.
Gente, qual o propósito da comunicação, então? Me perdi.
Tenho uma preguiça cataléptica dessas conversas. Deve parecer covardia, falta de argumentos, aceitação da verdade alheia, mas não, é preguiça. É desânimo. É desconforto.
E a dó que a gente sente? Porque dá dó ver uma pessoa tão cega de razão. Ela fica cega mesmo! E brava! Porque defender a sua razão lhe custa batalhar pelo silêncio da plateia. E pelas palmas e ovações, que geralmente nunca chegam.
Eu tenho uma estratégia para essas situações. Nem sempre funciona, porque existem as provocações, as alfinetadas, os cutucões. Mas, na medida do possível, vou me calando, me distanciando, me esgueirando por outros pensamentos e paisagens, até que me faço parte nula da conversa, deixando clara e delicadamente que não tenho interesse em participar.
É bom fazer silêncio para deixar o outro ouvir a sua própria voz. Às vezes, dá certo, mesmo sem razão.

terça-feira, maio 30

Na ânsia de esconder defeitos, acabamos omitindo também as virtudes

Primeira olhada no espelho de manhã e lá está aquela espinha gigantesca, pronta para destruir o look do dia. E dá-lhe creme, base, pó, argamassa, o que for para esconder a intrusa.
Um descosturado no casaco, a botão que caiu, a unha quebrada, a carteira pelada, tudo a gente faz para esconder, para evitar as situações de constrangimento que podem, e se Murphy colaborar, devem aparecer pela frente.
Válido, por que não? Tenho todo o direito de não publicar o que me envergonha, e de fato, nos dias de hoje, talvez esteja literalmente falando de publicações nas redes sociais, mais do que qualquer outra forma de exposição.
Tudo bem, se não está agradando, é melhor tirar da vitrine.
Mas, e se me equivoco e passo então a esconder e maquiar as minhas melhores virtudes? E se, para conseguir aceitação, admiração, pertencimento, viro as costas para minhas melhores qualidades e assumo um tipo, um personagem?
Sem nos dar conta, estamos ficando cada vez melhores nisso. Por conveniência, por indolência ou por simples incompetência, estamos escondendo o que nos identifica, não estamos conseguindo nos respeitar como somos e abafamos o que não gostamos e até o que gostamos, para caber nos cubículos de cada padrão.
Está na moda pedir mais amor por favor, Ouvir a opinião alheia com respeito e sem agressões, isso já saiu de moda faz tempo.
Deixamos de lado nossas qualidades únicas para repetir como papagaios os bordões do momento. Deixamos de jogar gamão para ter mais tempo para os joguinhos solitários do celular. Paramos de surpreender as pessoas queridas com uma ligação e enviamos uma mensagem com carinha feliz, sapinhos e corações.
Adoro as conquistas tecnológicas, já não vivo mais sem elas. Mas me assusta o tabuleiro em que a massa humana está mergulhando, para virar um bolo só, não assumindo suas espinhas e virtudes.

Prometa-se o melhor

Declare-se apaixonadamente. Ame intensamente suas virtudes. Seja paciente com seus defeitos.
Quando feliz, irradie alegria, abra os braços, dê risadas sonoras, e, na tristeza, se cuide com carinho, um chocolatinho, um chá, um livro, bons amigos.
Prometa não se afastar da boa saúde, nem se entregar a qualquer doença sem lutar. Seja um sentinela a postos em favor do seu bem estar.
Desfrute das boas companhias até não poder mais. Delicie-se, aconchegue-se, peça colo, ofereça o seu também.
Não entregue suas fragilidades sob qualquer juramento ou promessas. Seja de confiança, confie nos seus julgamentos. Aposte nos seus palpites, defenda o seu bom senso.
Não permita que violem seu caráter nem seus critérios a não ser por sua vontade. Não se venda, não se liquide, não ponha preço, não pague qualquer preço para ser quem você não é. Ame-se de graça e com gosto!
Ignore julgamentos e críticas maliciosas. O mundo está cheio de juízes e conselheiros que não valem uma réplica. Devolva as ingratidões para o lugar de onde elas vieram, as espertezas, as vantagens aos que não vivem sem elas. Proteja-se das ilusões e principalmente dos ilusionistas.
Permita-se todos os dias um pequeno agrado. Uns minutos a mais no banho quente, uma mensagem para alguém bacana, um doce, uma passadinha na papelaria, um cinema no meio do dia.
Trabalhe de forma que o resultado seja admirável e o descanso, proveitoso.
Se convide para passear, para rodar o mundo, ainda que seja uma volta no quarteirão. Viva por inteiro, guarde o suficiente para realizar seus sonhos, não pague o preço do tédio nem da preguiça.
Não se afaste de si, jamais queira ser outra pessoa ou ter ao lado alguém para fazer as juras que você ainda não fez a si.
Não dispense afetos verdadeiros, mas não dê a eles a sua responsabilidade de ser feliz com o que tem no dia de hoje.
Faça juras de amor a si e torne legítima a sua relação de amor com a vida. A troca de alianças com o mundo lá fora será mais leve e fácil de escolher e entender.

sábado, maio 27

Querida mãe,

Amanhã é seu aniversário e meu presente será a saudade.
A mágica do tempo leva embora o luto e deixa as lembranças que identificam nossos papéis na vida.
Não foi fácil a nossa vida, não é mesmo? Você, de tudo o que passou, pouco ainda acreditava na felicidade. Eu, cheia de vontade de ser feliz, por muito tempo não tive capacidade de entender como doíam suas cicatrizes e o quanto você foi cortada e intimidada.
Você me deu o seu melhor, ainda que acompanhado de uma enorme rudeza, na estratégia de me preparar para as decepções da vida.
Tivemos momentos felizes. Breves. Eternos.
Sofremos de uma constante incompatibilidade de visões. Nadamos juntas no oceano da vida, ainda que jogando água no rosto uma da outra.
Uma mulher de um metro e meio, uma enorme e corajosa mulher. Enfrentou tudo o que se pôs no caminho, até mesmo os inimigos imaginários, frutos da história de dor e abandono.
Confiança era uma palavra difícil de assimilar. Ninguém é de confiança, você dizia.
Que mundo amargo e inimigo que você teve que desbravar! E me proteger, como sua missão.
Chegamos ao ponto de romper mil vezes, mas nunca o fizemos. Ainda bem.
Na doença, a vida nos deu a chance de nos perdoar mutuamente. A mim, me deu o tempo que eu precisava para te reconhecer, entender sua fragilidade e seu enorme medo de enfrentar as próprias emoções.
Sinto saudades de você. Sinto alívio por agora sermos mãe e filha que não se estranham mais. Sinto alegria por ter lembranças de todos os tipos. Sinto orgulho por ser quem sou e saber de onde venho. Sinto que tudo foi exatamente como deveria ter sido.
Somos uma família de mulheres que buscaram caminhos diferentes para desbravar a vida. Você, na força. Eu, na palavra. Sua neta, essa se parece bem com você, mas com o mágico toque da evolução da espécie.
Hoje, meu sentimento é de missões cumpridas. Ambas.
Comemorarei seu aniversário te contrariando, com muita alegria e nenhuma desconfiança por me sentir bem.
Te amo, mãe.

sexta-feira, maio 26

Apetite não é paladar. Apego não é amor.

O tempero da comida é a fome…
Não será que a privação, o desespero pela saciedade possa mascarar inclusive o gosto da conquista?
Matar a fome é imperativo. Sentir prazer, apreciar a comida, escolher o que mais agrada, aí já outra experiência.
Na urgência de nos apegarmos a alguém, confundimos apetite com paladar. Queremos rápido, correndo, para ontem. E, nessa urgência, achamos que o que estiver disponível servirá. Já com as necessidades imediatas garantidas, então queremos qualidade, personalidade, exclusividade. E não será na bandeja rápida do lanche da esquina que teremos tudo isso.
A fome é urgente. O paladar, escolhe e espera para ter o que deseja. No apego, a carência morre de fome. No amor, a liberdade é o tempero mais forte.
Quanto mais tempo passa, mais a fome aumenta. Mas não é porque ela aumenta, que qualquer coisa vai servir, ou, que se deve comer mais do que a conta. Como nas relações, o apego não pode abocanhar nenhuma individualidade. Mesmo que a fome seja intensa.
Querer tudo e querer depressa já demonstra uma desorganização que certamente irá comprometer qualquer equilíbrio que queira se instalar. Apego que se fantasia de amor é sentimento faminto louco para devorar o outro. E sem restrições, critérios ou culpa.
Se conhecer, entender e aprimorar as preferências. Ir mais fundo no que se aprecia, buscar pares e simpatias. Isso é conhecer o paladar. Para comer e para amar.
Lembre-se de quando estiver com muita fome e acreditar que qualquer coisa será um alívio.
É possível que depois da saciedade, venha uma tremenda indigestão.
Nos encontros da vida, também.

quinta-feira, maio 25

Dica: A vida jamais corresponderá às nossas expectativas, mas sempre às nossas necessidades.

Crie dinossauros, mas não crie expectativas. Com muitas variações, a frase volta e meia aparece na nossa vida como uma grande verdade.
Não sei se concordo plenamente, já que expectativas me parecem pontos de luz no céu nublado e já conhecido. Desejos, ensejos, esperanças. Todos parentes próximos das expectativas.
A gente se antecipa, quer adivinhar, e, se possível, ajeitar, manipular. Um movimento saudável, assertivo, vivo. Que mal há nisso?
Mal não há, definitivamente.
Ruim é se recusar a entender que a vida não dá muita bola para nossas expectativas, mas sim para nossas necessidades. E ainda bem que é assim. É uma puxada na corda para nos fazer voltar ao que é possível, cabível, aceitável.
Porque nós voamos. Voamos nos sonhos, nos ensaios, nas antecipações e simulações. E tendemos a exagerar. Piramos, achamos que tudo merecemos, que não podemos ser contrariados. E a vida dá corda até um certo limite. Se ultrapassado, vem o tranco da corda puxada de volta.
Como é importante ponderar! Como é saudável deixar de lado planos e expectativas megalômanas e alimentar somente a certeza de que a vida é justa no que precisamos e, com o que precisamos, podemos transformar tudo o que desejamos.
Não é preciso abandonar as expectativas. Somente reconfigurá-las. Entender que a realidade é tão maior e mais abrangente que nossos sonhos pessoais, que envolve tantos outros personagens e situações, que seria de fato impossível nos atender por completo sempre que um novo desejo surgisse.
Quanto às expectativas em relação ao outro, fica a pergunta para respostas anônimas e pessoais: Quem sou eu para pretender que o outro me corresponda apenas baseado nas minhas expectativas? Forte né? Pois é.
Ainda bem que a vida dá corda e puxa. Um dia a gente aprende.

Um dia assim, sem maiores pretensões, mudei!

Acordei assim, igual. E fui fazendo o de sempre, assim, igual.
Mas, num piscar de olhos, numa olhada rápida no espelho, mudei.
O que determina essas pequenas mudanças de ritmo, pensamento, disposição, ânimo? A gente percebe que mudou, que algo se alterou, uma sintonia nova conectou, mas não faz nenhuma associação.
Mudar é estado natural. Mudamos o tempo inteiro. Nem sempre para melhor, mas mudamos. Quando percebemos, então levamos o susto. Porque não gostamos muito de sair do lugar.
A gente muda sem querer, muda porque é preciso se adaptar. E quando a gente resiste e se recusa, a gente sofre. Sofre por não querer mudar e sofre ainda mais por estar no processo de mudança.
E sempre que a gente anuncia que vai mudar, pouco muda. Porque a exigência fica enorme e a resistência, maior ainda.
Mudar é se equilibrar. É viver num mundo por vezes maravilhoso, por outras, inóspito. Mudar é ter jogo de corpo, a mente aberta, sentimentos suaves e apegos saudáveis.
Sem pretensões, as mudanças chegam. E quando são boas, ainda nos colocam sorrisos no rosto, daqueles que a gente nem sabe o porquê.
Por isso é tão importante buscar conexão com o que nos faz bem. Companhia, palavras, histórias, parcerias. Os espelhos por onde apreciamos nossas melhores mudanças.
Todos os dias podem ser iguais, mas nós, os protagonistas dos dias, estamos em constante mudança.
Não nos esforcemos para continuar iguais. Não vale a pena todos os dias fazer uma combinação diferente de roupas, sapatos e acessórios, e continuar vestindo as mesmas ideias e inspirações do dia anterior.
Quanto mais a gente muda, mais a gente cresce, e menos assustadora será a imensidão do mundo que ainda não conhecemos.
Permita sempre que um dia assim, sem maiores pretensões, traga os ventos de mudança.

sexta-feira, maio 19

Se é meia idade, por que certezas inteiras?

Esse texto é uma catarse pessoal, um questionamento de quem vive a tal meia idade e ainda se contorce em dúvidas de principiante.
Essa exigência da dobradinha experiência e sapiência é um fardo pesado de ser arrastado. Na verdade, mesmo com uma lista recheada de vivências, creio que intuímos muito mais do que recorremos aos arquivos passados. A vida é dinâmica demais para usarmos sempre as mesmas fórmulas. E, o que eu era antes, já não sou mais hoje.
A vida sempre foi ensaio e erro. O que funcionou para um, pode ter sido um desastre para outro. O conselho dado valeu sempre mais pela boa vontade e acolhida, do que pela eficácia no resultado.
Meia idade é um bom tempo, mas não é passaporte carimbado para certezas e convicções imutáveis. Tenho dúvidas todos os dias. Mudo de ideia muitas vezes. Meu prato preferido muda o tempo todo.
Quando a gente cria filhos, aprende a dar respostas. Mas dúvida também é resposta, e nunca me obriguei a responder com certeza, o que ainda me era dúvida. E, surpresa! Muitas respostas chegam quando se compartilha uma dúvida!
Nasci na época do telefone com fio e disco, da TV de válvula, do toca discos com agulha.
Se tivesse a certeza de toda a evolução que presenciaria, talvez não tivesse tanta curiosidade e tanta sede de viver para ver o futuro. E, naquela época, só tinha a certeza de que os desenhos futuristas que assistia na TV de válvula, eram somente o fruto da imaginação de alguém. E hoje somos todos Jetsons.
Portanto, fica agora a conclusão de que, aos 50 anos – a dita meia idade – não sou obrigada a ter certeza de nada, embora guarde algumas com muito carinho. Estou na vida para fazer perguntas e interpretar as respostas que chegam, ainda que temporárias.
Certeza mesmo, só de que tenho muitas dúvidas sobre o final, e se ele existe mesmo.