terça-feira, julho 25

Não prenda seu rabo na porta de ninguém

Não se deixe enjaular, amordaçar, assediar. Não seja objeto de barganha. Toda forma de relacionamento é bem-vinda, se for pautada na liberdade.
Ter o “rabo preso”, em qualquer poste, porta ou pé de mesa que seja, significa que a relação não é justa.
Ou vai definhar e morrer, ou vai virar algo muito pior, baseada em ódio e rancor.
Os encontros da vida não podem impor condições, não devem encarcerar ninguém, moral ou fisicamente.
Não aceite nenhuma condição em que fique devendo obediência. Não permita que a gratidão seja imposta. Não prenda o seu rabo na porta de ninguém.
Se é verdade que, pela evolução da espécie, perdemos nossas caldas que balançavam conforme nossos humores, de fato ainda temos um resquício delas, por onde tentam nos prender, nos puxar de volta, manipular, e até nos mutilar.
A intenção da analogia não é depreciar, mas ilustrar como permitimos, sem nos dar conta, que nos controlem e causem ferimentos profundos.
Ninguém é dono de ninguém. A coisa só é boa quando somos livres. Se for para tocar, que seja com carinho, com prazer, com consentimento. Tocar o corpo, tocar a alma.
Atenção, portanto, com o nível de confiança mínimo que uma relação precisa manter. De nada adiantam as melhores intenções numa confissão, se ela cai em ouvidos maldosos, se a entrega cega se transforma em visível cárcere.
O amor é lindo, de fato é. E qualquer coisa que não liberte e eleve uma vida a outro nível, não é amor. É rabo preso numa porta prestes a bater.

quinta-feira, julho 13

Escuta, nem todo silêncio é falta do que dizer

Assim como nem todo discurso é importante, nem toda música emociona, nem toda buzina abre o caminho, nem todo grito é ouvido.
Nem todo silêncio é falta do que dizer. O silêncio é comunicação poderosa. Intriga quem aguarda a mensagem explícita, assusta quem não sabe interpretar, alivia quem não tinha intenção de dar retorno.
Meu silêncio não é estupidez, não é dúvida nem temor. Meu silêncio, na maioria da vezes, é cansaço, exaustão. É uma nítida sensação de que as palavras não alcançaram a intenção, e, no contexto, foram condenadas a repetirem-se eternamente, sem trazer mais nenhum sentido.
Meu silêncio é protesto. Contra as conversas vazias, contra as fofocas doentias, as críticas maliciosas, as conclusões passionais.
Meu silêncio é recusa. Recusa a repetir os assuntos do momento, as discussões de ódios e paixões políticas, os ataques e defesas individuais. Recusa também a compartilhar as notícias infelizes, as tragédias vizinhas, a insanidade em que o mundo mergulhou.
Meu silêncio é grito! Grito de rompimento com o que não me cabe mais. Grito de liberdade com o que não interessa mais. Grito de alívio com o ponto final de uma discussão.
Escuta o que cada silêncio quer dizer. O seu silêncio, o silêncio que chega até você. Se antes o barulho resolvia, e agora não resolve mais, faz silêncio.
Faz silêncio ainda que a insistência seja incansável. A razão não costuma acompanhar quem rompe o silêncio somente por provocação. Quem aparece, quase sempre, é o arrependimento.
Escuta o que o silêncio do outro quer te dizer. Pode até não ser o esperado, mas dito, poderia ser pior.


Escuta a resposta da vida que os silêncios trazem. No meio de várias negativas aos nossos pedidos e esperanças, estão misturados os aceites, as desculpas, os convites e inspirações que só se ouve quando tudo está em silêncio.

Melhor levar a vida cantando do que xingando

A vida sempre apresenta impasses. Direita ou esquerda, confiar ou desconfiar, esperar ou mandar passear…
Muita, mas muita coisa nos irrita. Esperar por decisões alheias é uma delas. Aceitar decisões alheias, das quais não concordamos, outra. Conviver com decisões alheias que nos afetam diretamente, nossa!
Mas o novelo precisa ser desenrolado. A vida segue, e como sempre, com pressa. Nessa hora, a escolha é nossa: De que forma resolver a vida? Eu, particularmente, vejo mais vantagem em resolver a vida cantando do que xingando.
O jogo sempre será de “ganha e perde”, e a gente precisa ser flexível. Tentar resolver tudo no grito, não dá. Na manha, não funciona. No choro, menos ainda. O que já deu certo uma vez ou outra, não dará certo para sempre, isso é fato.
Como faz, então? A expectativa era uma, a realidade veio e bagunçou tudo. A vida acontece em dominó e a gente não resolve nada sozinho. Não adiantar chegar de voadora na porta. É hora de chamar a inteligência e bolar uma boa estratégia para resolver a vida.
Separar o que é possível resolver; conformar-se com o que ainda não dá nem para mexer; Apressar-se no que já é projeto para realizar. E fazer tudo isso, na boa disposição, contornando sempre as dificuldades, pedindo ajuda, se preciso, mudando a rota, quando necessário.
Para lidar com gênios difíceis, muita educação e firmeza. Se, na hora de um embate, a gente cisma de evocar o nosso pavio curto também, a explosão é certa, e o resultado, todo mundo com a cara queimada.
Se o que atravanca é falta de atitude, é sempre bom dar uma revisada no traçado. Se estivermos parados por muito tempo no mesmo lugar, a vida não está funcionando. Melhor dar a partida de novo, e seguir, ainda que em outra direção e deixando coisas para trás.
É para frente que se anda, sempre. E o tempo não perdoa, empurra. Melhor então, sempre, levar a vida cantando, do que xingando.

O que aprendo com um vizinho barulhento

Aprendo todos os dias que tolerância tem limites.
Reforço mentalmente a certeza de que gritar não educa, não resolve, não diverte, não garante poder, não prova razão.
Descubro que vontade de ir para longe dali, pode se transformar em meta de vida.
Um vizinho barulhento pode morar dentro da casa da gente. O nível de incômodo é tanto, que ele parece sempre estar sentado na beira da cama, cantando, repetindo mil vezes o mesmo refrão, fazendo sua versão particular para um jingle, imitando Fred Flintstone.
O vizinho barulhento não se conforma só com sua própria voz. Ele acha pouco. Então, arrasta móveis, deixa cair de tudo no chão, traz vinte amigos para seu apartamento num domingo a noite, assiste ao futebol urrando e batendo com o pé no chão. No chão não, na minha cabeça.Se tem um cachorro, provoca-o até que o bicho não pare mais de latir e pular pelo apartamento.
Se tem filhos, desde cedo os ensina a arte dos gritos, dos brinquedos jogados no chão com força, das bolas na parede, do concerto com o pianinho às duas da manhã, dos arrotos barulhentos.
Se tem filhos e cachorros, aprendo que os incomodados realmente devem se mudar o quanto antes.
O vizinho barulhento é ainda mais insuportável, se comparado a vizinhos conscientes. Nessa hora, não há nada que o defenda. E, se a tentativa é de suportar sem reclamar dia e noite, por graças, às vezes os vizinhos do prédio ao lado reclamam por mim. É, nessa hora aprendo que um ruído chega longe!
Ah, não deixo de aprender alguns palavrões diferentes quando o futebol é o tema do dia.
E, como se quisesse, mas não quero, aprendo também que o filho é dotado como o pai, coisa que ele repete junto à janela, para que eu não consiga esquecer, e lembre sempre que o encontrar no corredor.
Mas o danado é bonzinho, e, ao me encontrar na entrada, abre sempre um sorriso e cumprimenta com alegria. O que eu aprendo com isso? Que, ainda que eu não creia, um dia ele vai se mancar que alguém mora no apartamento de baixo.
Isso serve para vizinhos, amigos, amores, família, e todas as relações em que o barulho atrapalha a verdadeira mensagem que se quer passar.

terça-feira, julho 11

Dor. Ainda que não pareça, vai passar

Que tarefa mais difícil, a de acreditar que uma dor passará, justo naquele momento em que ela vem com tudo, e leva tudo o que poderia servir de consolo e esperança.
Qualquer dor, desde que doa, se apresenta como se viesse para ficar, para jamais nos deixar. Talvez, uma das sensações mais reais que possamos sentir. A dor nos despedaça. E, juntar os pedaços, nos parece sempre um ato impossível. A dor nos rouba as forças, o colorido, a porta para o futuro.
No tempo de dor, só o que alivia são os pequenos momentos de consolo, solidariedade, empatia. E como fazem diferença! Ainda que não afastem a dor, negociam uma trégua, nos arrancam alguns sorrisos e poucas esperanças.
Dor de perda, dor de remorso, dor de desamor, dor de corpo e de alma. Dores que irradiam e são capazes de nos transformar em algo que nunca fomos. Até essas passam. Embora não pareça, elas passam.
A dor só dura o tempo que a ferida tem para curar. O mais importante é deixar curar. Se a gente fica arrancando a casquinha, ela volta, muitas vezes, pior. E arrancar as casquinhas das dores é quase uma especialidade nossa. É querer a cura mas não deixar cicatrizar. É mexer no que já foi tão traumatizado e magoado. Contaminar aquilo que o tempo, pacientemente, se encarrega de finalizar.
A gente se agarra até às dores, não quer deixar passar. E depois reclama da vida amarga que sempre teve. É preciso deixá-las. As dores entram na nossa vida para cumprir um papel temporário. Muitas vezes ensinam, educam, noutras, derrubam, pisoteiam. E sempre doem! Mas passam. Um dia, passam.
E quando uma dor está indo, nada de chamá-la de volta. Nenhuma nostalgia cabe na partida de uma dor. O melhor a fazer é nos despedir, certos de que não será a última dor da vida, mas que também passará.