segunda-feira, dezembro 28

Dezembro, o mês das catarses

Dezembro é o mês que enche de compaixão os nossos corações, esvazia nossas carteiras e nos faz refletir novamente sobre o sentido da vida.
Temos certa dificuldade com fechamentos, finalizações, conclusões.
Quando falamos de algo que gostamos, não sabemos como parar.
Quando comemos, não queremos que acabe.
Quando amamos, não gostamos de nos despedir.

E assim seguimos, com aquele medo velado dos finais, dos términos e rompimentos, da morte. O ciclo natural vai ficando tanto mais assustador quanto mais próximo do final. Somos assim, seres que brigam e magoam com os pontos finais.

E os dezembros são sempre prenúncios de pontos finais. O ano acaba, as reflexões e conclusões transbordam, para uns, que se vá logo! Para outros, como passou rápido...

Dezembro traz em si a imposição da compaixão, as emoções mais delicadas, o sentido de família, o olhar solidário a todos os povos da terra. Dezembro tem esse apelo.
Dezembro é mês de promessas, de votos, de planos, aquisições, ligações e contatos com gente que há muito não frequenta nossos corações. É mês de confraternizações e reencontros. Também de arrependimentos e perdões.

Em dezembro passam os caminhões da Coca-Cola, iluminados e musicais, e ainda que seja um merchandising batido, os corações estão tão amolecidos em dezembro, que a maioria de nós corre para a janela e realmente tentar captar a tal magia prometida.

Dezembro entorpece, hipnotiza. Faz a gente procurar desafetos, desculpar mal feitos, declarar-se exageradamente ao amigo secreto. Dezembro coloca para fora muito sentimentos retidos, faz a gente chorar fácil, rir escandalosamente,  olhar os muros e ver poesia em tudo...

...e escassez! Em dezembro é preciso comprar tudo. Para ter, para dar, para guardar, para esperar, para trocar, para o fim do mundo chegar. O desespero de dezembro é impressionante, mas é a expressão de como lidamos com os finais. Finais que são uma fração de segundo e logo tudo já é novo.

E que dezembro seja paciente com toda a catarse que precisamos fazer para sobreviver aos finais. Logo janeiro fará tudo voltar ao normal!


Uma boa faxina de final de ano!

Mera formalidade, a vida e o tempo ignoram o calendário, mas gostamos de fechamentos e conclusões. Final do ano sempre sugere limpeza, descarte, reforma, mudança de ares e vibes.
A faxina da casa é a parte mais fácil. Descartamos aquelas coisas de cozinha que compramos prometendo uma inovadora utilidade e jamais usamos; jogamos fora revistas, jornais, etiquetas e notinhas fiscais; doamos livros, roupas, bibelôs e outras tranqueiras que, por final concluímos que só serviram para acumular poeira. O ambiente se renova, a casa fica mais aliviada, parece que tudo vai andar bem no novo formato e pensaremos duas vezes antes de comprar tudo de novo…
Então, chega o momento do check list das pendências, promessas, compromissos e sentimentos empoeirados e acumulados na estante pesada. Por onde se começa uma limpeza como essa? De onde retirar coisas, de modo que a estante não se desequilibre e tombe com tudo por completo?
Abolir o mais pesado pode parecer um grande alívio, mas, se por um segundo isso escorrega, o estrago será grande!
Melhor começar pelas poeirinhas que voam, aquelas que pensamos que já foram, mas que, quando viramos as costas, pousam novamente nos móveis e em nossas consciências.  As poeirinhas teimosas das implicâncias, desejos de revanche, invejas e ciúmes descabidos, tantas vezes sutis, mas que causam grandes e sofridos estragos.
Feito isso, uma boa ideia seria aspirar todas as palavras que não foram ditas, as brigas internas, as discussões ensaiadas e jamais travadas, os insultos e difamações cogitados em momentos mais tensos. Aspirar e liberar, esvaziar o coletor.
Por fim, para clarear e perfumar novamente o que já andava cinzento e sem vida, distribuir, mesmo que em pensamento, todos os votos possíveis de saúde e paz aos desafetos,  compreensão aos mais difíceis, paciência, entusiasmo, criatividade e muita vontade de viver a nós mesmos e a todos os que pudermos afetar com o nosso convívio.
E, com a faxina em progresso, já seremos capazes de olhar através das vidraças o amanhecer do próximo ano, que promete ser exatamente do jeito que lidarmos com ele. Que comece limpo e claro!
Publicado em Conti Outra em 28/12/2015

sexta-feira, dezembro 25

Dizer adeus a um amigo

Amigo é a cola que nos prende a cada etapa da existência. Amigos de infância, de colégio, de esporte e trabalho, amigos de copo, de loucuras, sem razão e sem noção. Os amigos nos situam, nos mostram onde estamos no momento, e, sem dúvida, por onde passamos e o que nos tornamos, inclusive por eles.
Dizer adeus a um amigo é renunciar obrigatoriamente ao seu convívio. É se dar conta de que, o que era uma escolha, no momento do adeus torna-se uma cruel imposição.
Amigos são aqueles que passaram por nossas vidas e deixaram lembranças, quase sempre deliciosas e divertidas, mas foram levados para outras estradas, outras escolhas, outros lugares. Amigos são os que frequentam a nossa vida e viraram nossos compadres, tios dos nossos filhos, conselheiros e enfermeiros para todas as horas. Amigos são também os que o mundo virtual nos apresenta, que de alguma forma se importam conosco, torcem por boas conquistas, fazem votos de aniversário, pensam em nós com carinho. E somos amigos de todos esses amigos na medida que retribuímos. Na parcela de tempo e vontade que destacamos para responder a uma mensagem, fazer uma ligação, uma visita, comparecer a uma festinha, encontrar na rua e dar um abração!
Diferente das outras formas de relacionamento, para os amigos não é preciso muito. Basta saber que o amigo existe e está tocando a vida como sonhou ou como pode, mas que é seu amigo, que ilustrou alguns dos seus dias e você guarda lembranças reais e a maioria delas é feliz! Até mesmo as que não foram, o tempo as transforma em piadas e lendas, e, quando contadas, se tornam o charme da amizade.
Dizer adeus a um amigo é ter a irremediável certeza de não haver mais nenhuma repetição dos momentos vividos. É sentir-se um pouco mais só no mundo, constatar a patética e tola certeza de que a vida escorre pelos dedos e nunca seremos capazes de segurá-la.
Dizer adeus a um amigo nos faz repensar o tempo. Como vivemos o tempo que temos. Como, de forma totalmente equivocada, já evitamos reencontros pelas mais variadas e infelizes desculpas.
E então é o dia de dizer adeus a um amigo. E nos deparamos no espelho com cara de órfãos, desolados e desorientados. Adultos que somos, vamos superar, mas, se há uma dor miserável de  intensa, essa é a dor, de dizer a adeus a um amigo. É dizer adeus a si mesmo, à parte que fomos em sua companhia, e, mesmo que ínfima no todo da vida, é a parte nos diz adeus e nos desfaz, a cada amigo que se vai.

segunda-feira, dezembro 21

Pontuando a vida.

Se seu texto ainda não chegou ao ponto final, valorize as exclamações!
O travessão avisa que vou falar, que é o meu espaço de comunicação, que tenho uma mensagem, um acréscimo, uma contribuição.
Quando peço a palavra para a vida, tomo a responsabilidade de ser ouvida e em alguns casos, seguida como exemplo. O travessão pode ser uma ponte, um caminho,  ou uma arma. Uma espada afiada.
Reticências dão o tom da divagação, da respiração que tenta concluir, refletir, deixar o outro complementar se preciso for. Em si são boas, mas o abuso delas pode comprometer a mensagem…
A vida entre parênteses é um perigo. Nunca se sabe se é melhor sair e fazer parte da dinâmica, ou, permanecer velada, visível mas impenetrável, infelizmente dispensável se retirada do contexto. É o caso das indecisões, da falta de posicionamento, do medo paralisante de errar e fracassar. Entre parênteses, coloque-se somente o que realmente não pode ser misturado ao todo.
Dois pontos são as constatações importantes, as realidades, as ocorrências, felizes ou não, mas presentes em toda a composição da vida. As vírgulas ditam o ritmo, as pausas, o que se acrescenta e segue em frente. O que é narrado entre  vírgulas,  geralmente é especial.
Na dúvida, na vontade de saber mais, de se aventurar, que questionar, todas as interrogações do mundo são válidas. E a cada parágrafo um novo passo, um assunto diferente, uma nuance da vida descoberta com o tempo, carregada de vivências. Carregamos alguns parágrafos longos e enfadonhos, seguidos de outros mais leves e sintéticos. Depende sempre do desenrolar da história.
Tudo necessário, útil e com significado e valores definidos, Contudo, nada mais inquietante, desbravador e estimulante do que as exclamações! Através delas consegue-se demonstrar grandes surpresas, loucas descobertas, estupendas emoções! Exclamar é quase obrigatoriamente terminar uma frase com um sorriso! Exclamar é soltar de forma espontânea uma reação! Exclamar é fazer um anúncio, uma homenagem, uma aclamação!
A pontuação da vida é uma composição pessoal, muitas vezes colaborativa, outras, solitária ou mal entendida, mas cada um sabe onde cada ponto lhe convém.
Importante lembrar, enquanto não chega o momento do ponto final, que exclamações são infinitamente mais empolgantes e vibrantes do que reticências, e, que as aspas alheias sejam exemplo de valores a considerar.

sábado, dezembro 19

A arte de não saber aproveitar as férias

Sonho com elas. Sonho muito. Faço planos, consigo ver o tempo passar vagarosamente de dentro de uma rede, balançando indolente.
E eis que vem chegando o dia tão sonhado, e, por mais organizada e programada que seja a temporada, tudo começa a sair do controle. A geladeira pifa, o zelador vem avisar que tem um vazamento “dos grandes” lá na garagem e que tem toda a pinta de ser do nosso apartamento, o tempo muda, o cartão é clonado, o gato adoece… Uma semana ou mais para resolver tudo e ainda há férias para desfrutar. Nada de pânico!
Então, num olhar daqueles de relance, bem rápido, quase ignorado, a parede da sala salta! A parede que está um pouco manchada, que tem umas marcas de coisas que não estão mais penduradas lá. – Ah, eu podia pintar essa parede. Em um dia faço isso. Nem vou lixar, está lisinha… Pronto, quem já pintou uma parede sequer, sabe onde isso vai dar. Mais uma semana entre massas corridas, texturas para as partes que não foram lixadas, as outras paredes porque ficaram feias perto da recém pintada e muita reclamação e arrependimento, enquanto os respingos do chão são tirados, um a um.
Mas sobraram uns dias e vou aproveitar loucamente. O plano é rever amigos queridos, rodopiar pela cidade, acordar tarde, almoçar tarde, dormir a tarde…
Mas os amigos não estão de férias, não consigo decidir se é melhor ir ao novo museu ou ao cinema, o relógio biológico urra às sete da manhã, ao meio dia já estou louca de fome e, entre uma indecisão e outra, vejo que chegou um e-mail de trabalho. Claro que não darei atenção, estou de férias, vejo isso no retorno. Mas, quem sabe dá para adiantar e então a volta não será tão atarefada. Deixa eu ver…
E no domingo, véspera do retorno à rotina de trabalho, meio que sem querer, recebo mensagem de uns amigos convidando para um vinho e papo furado. A verdade é que agora só quero que chegue logo a segunda-feira, já tenho todas as tensões do trabalho alinhadas e marchando na cabeça, mas meio de má vontade, aceito.
E despertador toca às sete da manhã e eu volto das férias com uma tremenda ressaca!