sábado, novembro 28

Sou dessas!

Sou dessas que vivem em eterna esperança, que teimam em acreditar na sinceridade e torcem por inícios, meios e finais felizes.
Sou dessas que já erraram nas escolhas, que já se deixaram escolher sem nenhum critério, que calaram a voz quando deveriam gritar e falaram em momento inadequado.
Sou dessas que não querem sair do refúgio, mas quando saem, não querem voltar antes do amanhecer, não querem que a festa acabe.
Sou dessas que sentem medos infantis embora os enfrentem com coragem e bravura. Que não enxergam o óbvio mas captam sutilezas. Que são movidas por certezas delicadas e dúvidas grosseiras. Sou das que raramente atravessam as fases da vida com passos confiantes, mas que também se negam a estacionar em tristezas e frustrações.
Sou dessas que dizem: – Eu também não queria mesmo! E seguem em frente, olhando para trás de vez em quando, até que não seja mais preciso olhar nem lamentar nem sequer lembrar.
E sou também das que pedem desculpas como criança, que escrevem cartas, que refazem as cenas, lembram das palavras ditas, guardam momentos como tesouros.
Sou dessas que martelam seus pregos para pendurar ilusões e memórias e da mesma forma arrancam sem dó, da parede e da vida , manchas, riscos e cenas amareladas.
Sou dessas que num dia acordam vaidosas, e querem estar impecáveis em qualquer situação, e, logo no dia seguinte, perdem a paciência e saem de havaianas,  cabelo preso e rosto lavado.
Sou dessas como tantas outras, que vivem buscando o equilíbrio de uma vida saudável, aceitável, agradável, e, quando possível, emocionalmente estável.
Sou dessas que estão na luta,  que se recusam a entregar seus direitos sob qualquer alegação ou coação ou emoção.
Sou dessas, e só o que quero é ser reconhecida como única, embora seja muitas e nem tão diferente de todas.
Publicado em Conti Outra em 28/11/2015

quinta-feira, novembro 26

A vida que eu quero ter!

A vida que eu quero ter passa bem longe do furor do dia-a-dia,  segue por uma estradinha onde não cabe tanta ambição nem tem as curvas dos humores.
A vida que eu quero ter não deve começar no final da vida, quando tudo estiver no seu lugar, já que não há lugar certo para nada, nem garantias ou certezas.
A vida que eu quero ter não se encaixa com tudo o que desejo comprar, com tudo o que preciso conquistar, com uma fração do que eu já consumi.
A vida que eu quero ter não combina com tanto barulho – dentro e fora de minha cabeça –  não depende da  cor do meu esmalte, não acaba nos limites do meu território.
A vida que eu quero ter não é a vida que eu acho que preciso ter, para acompanhar o fluxo, para me inserir no contexto, para garantir presença nos acontecimentos.
A vida que eu quero ter é aquela vida que me vem aos pensamentos quando fecho os olhos, aquela vida que me convida a dar menos valor aos consumos e mais importância às conversas e às risadas.
A vida que eu quero ter me diz todos os dias que mais um dia já se foi e eu o usei com a vida que eu acho que preciso ter, matando leões e esquecendo de olhar para o céu.
A vida que eu tenho hoje anda em conflito com a vida que eu quero ter, pois desapego é uma coisa difícil de empreender. A vida que eu tenho hoje já me permite não ver televisão, mas ainda não me deixou desligar o telefone para ouvir o barulho do mar.
A vida que eu acho que preciso ter me cobra a cada hora mais um conquista. Me castiga e submete, provocando comparações e competições.
A vida que eu quero ter me diz que eu só preciso pagar minhas contas e ter tempo. Tempo para viver. Juntar apenas forças, cultivar saúde e equilíbrio, prestar mais atenção na brisa do que nas buzinas.
A vida que eu quero ter não engana e já me avisa que haverá dores, mas,  ao mesmo tempo me alerta que, quando se vive a vida escolhida, até as dores são mais legítimas e se vão com o passar da vida.
Um brinde à vida!

terça-feira, novembro 24

Nem tão cigarra, nem tão formiga. A dose certa para desfrutar!

Estava aqui pensando numa forma de amenizar a carga dessas protagonistas da fábula, já que, embora tendo êxito, a formiga se matava de trabalhar, e, durante um período grande, era só que fazia.
E um monte de nós faz exatamente do mesmo jeito, prevendo os mais tenebrosos futuros, catástrofes e apocalipses que nunca virão.
É preciso dosar. Nosso passado dá um tom para o nosso futuro, mas não pode ser o comandante deste barco. Quem de nós nunca passou um sufoco, temendo um amanhã incerto, aquela noite de angústias por não ter no que se agarrar? Isso é horrível e quem dera pudéssemos pular essa parte, ou ao menos esquecer. Mas a vida não se resume somente a prevermos os momentos mais duros e estocarmos incessantemente o que julgamos ser vital para sobreviver.
Se for para pensar dessa forma, aí vai uma reflexão: Numa situação extrema, quem de nós conseguirá se fechar junto com suas conquistas e deixar um irmão, um amigo, um semelhante seu desprovido do essencial? De que adianta ser uma formiga egoísta, se for para passar o inverno condenada à solidão e à mesquinharia?
E a cigarra? A pobre infeliz que provavelmente cantava e cantava para espantar seus medos, para não demonstrar que quase nenhuma habilidade tinha, a não ser cantar? É certo que ela nem tentou, como muitas vezes nós fazemos. Se há alguém fazendo por nós, por que não sair e cantar?
Eu não gosto de ser formiga, embora me identifique mais com ela. Tampouco me agradaria ser cigarra, pois em pouco tempo o tédio me mataria.
Na minha fábula pessoal, sempre que eu estiver muito formiga, que me cutuque uma cigarra, que me convide a cantar.
E, naquela fase cigarra, indolente e preguiçosa, que apareça uma formiga e me tire da inércia, do eterno e etéreo desfrute, que me convide a construir algo comum.
E que isso seja recíproco, de modo que a “moral da estória”, seja uma troca interessante de valores e vivências. Quando não nos completamos, não desfrutamos.

Meu mundo por um elogio!

Quem não gosta de um elogio, de reconhecimento, de um bom destaque? É uma sensação deliciosa, não se deve negar.
Mas, esse é um terreno perigoso que pode embriagar e viciar, principalmente se não soubermos reconhecer por nós mesmos o valor de nossas qualidades,  seja lá por qual razão, pois que são diversas e nos espreitam por todos os cantos, tentando entrar: inseguranças, comparações, concorrências, competições, vaidades, rejeições e toda a sorte de aniquiladores do reconhecimento genuíno.
Somos legítimos quando reconhecemos, ou pelo menos desconfiamos de nossas qualidades e defeitos. Somos imperfeitos e também livres, porque é pública e acessível a nossa lista de prós e contras.
Somos forjados quando queremos e precisamos viver somente de elogios e falsas afirmações, quando lutamos por espaços que não nos pertencem, quando somos vaidosos a ponto de anular o outro somente para garantir um destaque e fama.
Essa é uma via do perigo, e ainda existe outra, da qual podemos nem nos dar conta, que é a manipulação que sofremos para obter os louros que tanto queremos. Nos vendemos, muitas vezes nos liquidamos, e quem compra, por tão pouco, também pouco valor nos atribui. Pinta o cenário com as cores que sonhamos mas nos manipula como bem desejar. Nos alimenta o ego e mata de fome a alma. E tudo por uma afirmação externa, a mesma que não somos capazes de sustentar sozinhos.
  • Você vai sair desse jeito? Não deveria se arrumar um pouco mais?
  • Preciso repetir o que acabei de falar? Como você não entende? Perdeu a inteligência?
  • Seu trabalho poderia ser melhor!
  • Sua comida não me agrada, seu perfume me enjoa, seu andar é esquisito…
Exemplos… alguns… o suficiente para muita gente se descaracterizar por completo e lutar desesperadamente para ser o padrão do outro, para obter os elogios de que tanto precisa e se sentir pertencendo a alguma coisa. Coisa alguma.
Mas como nada a ferro e fogo se justifica, muitas criticas são justas e devem ser aproveitadas.  Já outras, as nocivas,  talvez seja melhor ficar com elas como experiência e mandar para longe quem as fez, assim como os elogios vazios.
Em todos os casos, é preferível sempre um reconhecimento duro do que um elogio frívolo. Não é preciso, não é necessário, não é vantagem, não alimenta.
Na dúvida,  seja gentil. Não elogie à toa, não critique sem razão.

quinta-feira, novembro 19

Se estiver sem rumo, siga o sol

Quantas vezes a vida dá voltas e piruetas, e, de uma hora para outra, ficamos sem opções, ou, no melhor dos cenários, não queremos aderir às opções disponíveis.
Podemos não aceitar, mas somos movidos por costumes bem enraizados, e ao menor sinal de desvio dos padrões, perdemos a rota, ficamos perdidos, simplesmente não conseguimos vislumbrar um caminho.
E, desorganizados, tendemos sempre a correr para o pessimismo, para o derrotismo. Nos apegamos à ideia de perambular pelo pior cenário para evitar decepções ou falsas ilusões. – Se não for desse jeito, ao menos a surpresa será boa. Isso é o que normalmente dizemos, mas sem nos dar conta do tempo e energia que perdemos, das opções encantadoras que descartamos, da luz que bloqueamos, da vida que congelamos.
Saímos da rota mas ainda estamos na estrada, e o movimento é grande, vem gente atrás, tem gente junto e adiante também. E tem gente seguindo a gente.
Portanto, nessa hora, se você estiver sem rumo, procure o sol. Siga seu calor, sua luz, seu poder de transformar humores, afastar depressões, gerar vida.
Vá ao encontro de quem representa o sol na sua vida. Se aninhe, se aqueça, se inspire, se fortaleça. Encontre seu rumo e siga, na rota do sol.