domingo, agosto 30

Sobre viver os lutos para que eles deixem de viver em nós

Um evento súbito, uma notícia triste, nosso chão aberto, o peito doendo, as lágrimas rolando e a gente se transbordando. A maioria dos nossos lutos são agudos, traumáticos, extremamente emotivos e quase não conseguimos acreditar que passarão. Mas passam, sempre passam e sempre levam os passados junto, de forma que um dia acordamos e queremos sentir o cheiro da vida com tanta vontade que até sentimos culpa. E então, passou.
Os lutos não andam sozinhos, eles chegam em bando. O da frente é o da vez, o que acaba de acontecer. E choramos esse luto tão doloridamente que mal percebemos os outros que se aninham na nossa dor e aumentam o caldo das lágrimas. A tristeza abre portas para lembranças estranhas, dores guardadas, assuntos passados, males trancados… Quando dizemos que algo não importa e já passou, precisamos ter cuidado. Isso pode bem vir a ser um dos irmãozinhos do luto atual que haverão de aparecer quando a porta for aberta… Uma pequena mágoa, uma saudade, um adeus não dado, desculpas não pedidas… ou não aceitas, uma palavra errada, uma visita não feita… tudo vira luto se tiver importado, mesmo que tenhamos afirmado o contrário.
E um dia as notícias ruins nos visitam, porque seria injusto que só visitassem os nossos vizinhos. E nós sofremos e choramos todos os lutos guardados em nossa alma. Pelo tempo necessário para que a cura chegue, nada alivia.
É quando o tempo, se compadecendo de nós, diz que não há mais tempo para chorar e a vida urge recomeçar. Enxugadas as lágrimas que lavaram o mundo, é o momento da cura, do adeus, dos perdões, da aceitação. Aceitar os lutos como parte de nós, a parte que nos desmonta mas que ao mesmo tempo nos aproxima das nossas emoções mais fortes e profundas. Aceitar o consolo dos anjos que aparecem nos momentos ruins, estreitar os laços com quem se solidarizou com nossa dor e veio tentar sentir junto, veio deixar o tempo passar ao nosso lado, amenizando as feridas, suportar o silencio cortado pelo som tristíssimo de um choro e as inevitáveis, mas também cômicas fungadas e assoadas. Amigos anjos, irmãos anjos, anjos sem nome, ou com o mesmo sobrenome. E ainda se não houver anjos, mesmo assim haverá cura.
O luto é o amor se contorcendo de dor. A cura do luto, é o mesmo amor, mas sem dor, com saudades, mas disponível para o que tempo há de trazer.

sexta-feira, agosto 28

A roda dos dias atropela ou acompanha você?

m janeiro, fiz promessas. Fiz planos com amigos enquanto suava e tentava aliviar o calor da estação.
– Há de ser um ano bom para todos nós, dizíamos e brindávamos.
Janeiro é um mês fantástico para as relações humanas, todos carregando o frescor do ano novo, um sol que não nos deixa duvidar que estamos bem vivos, e aquela esperança de dias perfeitos que adoramos cultivar… Janeiro é a atriz hippie com tiara no cabelo.
Em fevereiro, negociei algumas promessas. Ainda verão, ainda o sol escaldante e a vida chegando morna, ainda meio de férias, demorando um pouco para entrar no ritmo. – O ano está só começando! Fevereiro é o sorveteiro sonolento.
Em março, esqueci as promessas e trabalhei muito, tanto que não tive tempo para voltar aos exercícios, mas as promessas já estavam enterradas em algum lugar. Trabalhei mais do que queria, ganhei menos do que esperava, mas março é um mês apático. Março é o gerente do banco.
Em abril, descolei uma viagem. Foi um alívio bom, uma parada estratégica, uma explosão de novas paisagens e maravilhas. Como é bom voltar ao trabalho depois de uma boa viagem! Tudo flui, nada aborrece. Quanta inspiração! Deveríamos viajar pelo menos três vezes por ano, todos nós. A vida precisa de outros cenários e culturas para se nutrir. E entre lembranças de viagem e planos para uma próxima, abril passou, e Maio o acompanhou, silenciosamente. Abril é o maquiador e Maio, a bilheteira do cinema.
Junho chegou. Meu aniversário chegou com junho. Mês feliz! Mês de muitos abraços. Junho é um mês simpático para mim. Desfruto cada dia de junho como uma fatia de bolo de chocolate. Junho geralmente me traz presenças muito mais interessantes do que presentes, mas presentes também são bem-vindos. Junho é a avó doceira.
E julho acaba com a minha festa, o abre alas do segundo semestre vem com tudo avisando que já o ano acaba e quem não fez nada até agora, tampouco conseguirá fazê-lo até o final. Julho é o inspetor do colégio.

Agosto vem sisudo, tanto que nem o clima se mete muito com ele. Era para estar frio, mas agosto reclama, então, deixa um verãozinho mesmo. Agosto mete medo em qualquer um. Conto os dias de agosto. Medo dos lutos, medo das perdas, medo do medo de agosto. Agosto é o vilão do filme.
Já consigo ver setembro, vindo mais leve, colorido, porque assim o espero.
E, de mês em mês, de dia em dia, vivemos sem perceber o quanto nos repetimos, o tanto que somos simples e infantis, rodopiando pelo calendário, pela vida, ano após ano, como éramos quando pequenos, entendendo os braços e pedindo: – De novo!
E setembro, o vendedor de algodão doce, já está chegando. De novo!

quarta-feira, agosto 26

Sim, é pessoal, lamento.

Desculpe mas não é nada pessoal. Eu falaria isso para qualquer pessoa, eu negaria aquilo para qualquer pessoa…
Quantas vezes escutamos algo parecido? Quantas  vezes já o dissemos para alguém? Eu nunca disse porque acho que tudo sempre é pessoal. São características, hábitos, trejeitos, inflexões, respostas que nos fazem rejeitar uma pessoa ou que vem dela para nós. Isso nas situações de relações, onde o que o outro sente faz alguma diferença para nós. Não nas negativas comerciais, empresariais, institucionais e todos os ais onde o verniz social é capaz de achatar uma criatura até ela deixar mesmo de ser pessoa e virar qualquer coisa que não seja pessoal.
Mas, voltemos ao bordão quando usado entre conhecidos, parentes,  amigos, amores, outra qualquer forma de relação, qual será a razão para nos acovardarmos e não falarmos a verdade, já que temos esse direito e, se formos suficientemente gentis e educados, nenhum dano causaremos? Por que achamos que repetir que não é pessoal faz o outro se sentir melhor? Não faz, isto é óbvio! No máximo faz a criatura perceber que nem sequer possui algo de individual para ser comparado e então rejeitado. Façamos a prova em nós mesmos, no espelho:
– Desculpe, não é nada pessoal, eu sou desse jeito mesmo, então acho melhor ficarmos por aqui. (Desculpe= me tire a culpa; não é nada pessoal= você não é uma pessoa; eu sou desse jeito mesmo = covarde; então acho melhor pararmos por aqui= era o que eu queria dizer mas não tive coragem, não quero estar mais com você, preciso ir).
O mais louco é que geralmente começa: Desculpe… Já de cara pede-se desculpas, ou seja, que lhe tire a culpa por dar uma baita desculpa.
Aí gente, quando for pessoal, quando for dedicado àquela pessoa – sim, e isso é extremamente pessoal – vamos combinar de não dizer a tal frase, vamos nos esforçar para contar o que pessoalmente nos desagrada, nos afasta, nos impele a dizer não, que nos obriga a cortar laços e nós. Nós que agora vamos virar eu e você, nenhum de nós merecemos dar nem receber nada que não seja pessoal.

segunda-feira, agosto 24

Não toque no meu bom humor!

Vivemos momentos bastante mau humorados, desanimadores. Momentos mal encarados.
Crise no país, corrupção, intolerâncias, politicagens, lutas (ainda) por direitos óbvios… É a tal fase do gigante que acordou mas, quando esfregou os olhinhos, achou que era melhor dormir de novo, e, como não foi possível, agora está olhando para a bagunça em volta, totalmente contrariado. A consciência desperta, mas, se fosse mais esperta, encararia tudo com um humor diferente, com o humor que muda o cenário, que pensa em alternativas, que se impõe pela presença gostosa.
A gente queria que tudo fosse diferente, que as ciclovias fossem infinitas, que nunca ficássemos doentes, que pudéssemos olhar nossos celulares sem medo de sermos assaltados, que todos os escândalos não passassem de notícias inventadas para vender jornal.
Mas não é assim e não é só isso. Para engrossar o caldo, ora estamos sem dinheiro suficiente, ora ficamos sem o afeto que queríamos, sem companhia, sem vinho, sem critérios… E ainda, a maioria de nós tem família e família por si só já é pêndulo de humores; E o computador trava, a foto não favorece, a dieta desanda, a sandália arrebenta, a ressaca maltrata, perdemos as chaves e o sorriso no rosto. Pronto, explodindo em 3, 2, 1…
Agora a reflexão: Seremos nós todos uns mau humorados?
É hora de recusar esse título. É momento de entender o passar da vida, a pressa do tempo, a feiura da testa franzida, do resmungo inútil.
O meu bom humor é particularmente debochado, mas não é ofensivo nem ácido, só gosta de fazer analogias com situações verídicas. É a minha saída, cada um tem a sua.
Já o meu mau humor é um possuidor de alma, um spray congelante, um gambá assustado. Prefiro mantê-lo longe e sedado.
A doença do mau humor se chama distimia. A cura pelo bom humor não tem nome, no máximo um apelido de terapia. Sempre damos mais peso e títulos aos vilões, impressionante isso. Nossa natureza avinagrada se manifesta a qualquer mínima contrariedade. Somos bélicos, defensivos, palpiteiros, resmunguentos.
E então, no meio de toda essa gincana que é a vida, entre rosnados e caretas, aparece uma criatura desfilando sorrisos e cumprimentos. Desacostumados que estamos, repudiamos de pronto. Colocamos na conta da alienação, do despreparo. O bom humor alheio incomoda demais! Soa como um espelho retorcido, um beliscão bem apertado, uma lição de moral bem dada. E é.
Ainda bem que sempre há uma criatura por perto que nos mostra o lado divertido das coisas, que nos instiga até arrancar um sorriso amarelo, que provoca, desafia, enxerga beleza até em raiz seca. E ainda bem que uma vez ou outra essa criatura sou eu ou você. Nem percebemos, mas assim é. Geramos uma lufada de fôlego para aturar todos os motivos que temos para nunca mais sorrir.
E, quando for o nosso dia de sorte, de um inexplicável bom humor e alguém se aproximar tentando manchar ou envenenar, possamos dizer sorrindo: Não ouse tocar no bem humor!

sábado, agosto 22

À flor da pele. Quem nunca?

“Em casa, à noite, o pai guarda os sapatos dos dois no mesmo canto, pendura os casacos dos dois no mesmo gancho… Ele serve o jantar em um prato redondo e descreve a localização dos diferentes tipos de alimento fazendo uma analogia com os ponteiros do relógio. Batatas às seis horas, ma chérie. Os cogumelos, às três horas…”
Trecho do livro “Toda luz que não podemos ver” – Anthony Doerr
Quem nunca se viu em um estado mais sensível do que o normal, enxergando drama, poesia e arte em qualquer coisa cotidiana?
Quem nunca chorou ao ler um trecho de um livro, ao escutar uma música, ganhar um abraço, um pão doce que lembra a infância, um bilhetinho de amor?
Eu chorei com esse trecho do livro, confesso. Pensei nesse pai viúvo que cria a filha cega sozinho e, entre tantos atos de amor, ainda encontra poesia e encanto para a vida de ambos. É amor demais para não se arrepiar.
Curioso é que todos esses gatilhos existem o tempo todo em todos os lugares, mas não somos capazes de nos sensibilizar com tanta frequência, com tanta intensidade todas as vezes. E quando isso acontece, dizemos que estamos à flor da pele. Eu adoro essa expressão, mesmo que alguns digam que é a porta de entrada para um colapso, surto, crise histérica… Discordo totalmente e ainda ouso dizer que o estado de flor da pele nos faz uma verdadeira esfoliação na alma, nos mostra o que somos e qual são as importâncias que devemos nutrir e guardar na vida. Quando viramos poesia e às outras poesias nos misturamos.
Hoje, voltando para casa, desci do metrô, e, bem junto de mim passaram quatro funcionários levando um homem desacordado naquelas macas de pronto atendimento. Era um homem relativamente novo, e toda aquela multidão olhando curiosa, comentando. Realmente não tenho ideia do que aconteceu. Os rapazes do metrô subiram a estação pela escada rolante levando o homem para um posto de atendimento que tem logo na saída. E eles desapareceram porta adentro. Nesse momento me veio um nó na garganta, aquela sensação de choro, de desemparo. Eu não conheço o homem, desconheço o que aconteceu com ele, mas meu momento flor da pele me desarmou, me fez pensar que nenhum de nós nunca saberá o que será o minuto seguinte. Nem o homem da maca, ninguém.
Nos resta portanto, a certeza de todo o futuro incerto, que contará com deliciosos e perfumados momentos à flor da pele.