terça-feira, julho 11

Dor. Ainda que não pareça, vai passar

Que tarefa mais difícil, a de acreditar que uma dor passará, justo naquele momento em que ela vem com tudo, e leva tudo o que poderia servir de consolo e esperança.
Qualquer dor, desde que doa, se apresenta como se viesse para ficar, para jamais nos deixar. Talvez, uma das sensações mais reais que possamos sentir. A dor nos despedaça. E, juntar os pedaços, nos parece sempre um ato impossível. A dor nos rouba as forças, o colorido, a porta para o futuro.
No tempo de dor, só o que alivia são os pequenos momentos de consolo, solidariedade, empatia. E como fazem diferença! Ainda que não afastem a dor, negociam uma trégua, nos arrancam alguns sorrisos e poucas esperanças.
Dor de perda, dor de remorso, dor de desamor, dor de corpo e de alma. Dores que irradiam e são capazes de nos transformar em algo que nunca fomos. Até essas passam. Embora não pareça, elas passam.
A dor só dura o tempo que a ferida tem para curar. O mais importante é deixar curar. Se a gente fica arrancando a casquinha, ela volta, muitas vezes, pior. E arrancar as casquinhas das dores é quase uma especialidade nossa. É querer a cura mas não deixar cicatrizar. É mexer no que já foi tão traumatizado e magoado. Contaminar aquilo que o tempo, pacientemente, se encarrega de finalizar.
A gente se agarra até às dores, não quer deixar passar. E depois reclama da vida amarga que sempre teve. É preciso deixá-las. As dores entram na nossa vida para cumprir um papel temporário. Muitas vezes ensinam, educam, noutras, derrubam, pisoteiam. E sempre doem! Mas passam. Um dia, passam.
E quando uma dor está indo, nada de chamá-la de volta. Nenhuma nostalgia cabe na partida de uma dor. O melhor a fazer é nos despedir, certos de que não será a última dor da vida, mas que também passará.

segunda-feira, julho 10

Guarde seus segredos se quiser, mas guarde muito bem os dos outros

Quem nunca teve a sensação de que era hora de revelar um segredo? Num dia, inconfessável. No outro, assunto público. A gente faz isso o tempo todo e nem se dá conta. Faz por vontade, por necessidade, por sobrevivência.
Mas a gente só tem direito de fazer com o que é nosso. Com o que é do outro, não. O segredo alheio contado é fofoca. É malícia, premeditação, sacanagem.
Quando alguém confessa ou conta algo íntimo que não quer tornar público, já aí está enfrentando uma dificuldade. A primeira, confiar. A seguinte, contar. E daí por diante, torcer para que seja guardado como prometido.
Tão importante quanto jurar, prometer ou fazer gestos com os dedos, é entender a importância de ter consigo uma informação que pertence a outra pessoa. É cuidar de um bebê. É responsabilidade, carinho, proteção.
Não importa qual é o segredo. Desde que não prejudique ou ofenda ninguém, é para ser guardado, até que venha a decisão de não ser mais segredo, tomada por quem lhe contou.
Tenho experiências incríveis, de segredos contados e esquecidos. Anos depois, quem os guardou os trouxe de volta para mim. Esses, não sobreviveram à minha própria história, morreram com o tempo. Mas que alegria saber que alguém os guardou com respeito. E, com respeito e gratidão, foi liberado de guardar como segredo.
É vital poder partilhar segredos. Guardá-los somente para si pode ser um peso muito grande. Se forem sofridos, tornam-se ainda mais, alimentados pela mesma consciência que os guarda e julga.
Aprendi isso em uma ocasião muito difícil da vida. Certa vez, fiz uma escolha muito perigosa, e, apesar de não ser segredo para ninguém, por muito tempo me debati entre o que deveria e o que queria fazer. Até que, como resposta da vida, me veio uma agressão física.
Em primeiro momento, decidi manter segredo. Segredo comigo. Ainda que confiasse em muita gente, temia ouvir a famosa frase: – Eu te avisei.
Esse segredo se tornou tão sufocante que, sem coragem de contar a uma só pessoa, um belo dia o contei a todos, tornando pública uma vergonha que já não cabia mais em mim.
Por isso, insisto: Guarde seus segredos se quiser, mas guarde muito bem os dos outros. Você nunca será capaz de avaliar o quanto isso poderá ajudar alguém.

sexta-feira, junho 30

Carisma, liberte o seu!

Carisma não se explica. Carisma é um olhar único, um jeito de falar, aquela atração que vira a cabeça da gente para olhar a pessoa, prestar atenção, encontrar beleza e encantamento em tudo o que ela faz.
A criatura carismática dispensa qualquer acessório. De nada precisa, somente da sua presença. É impressionante o poder do carisma.
E quem sabe, usa bem e a seu favor. E quem tem um carismático por perto, se deleita.
Carisma é coisa de gente gostosa. É aquele imã que atrai olhares e atenções, um filme que empolga do início ao fim.
Todo mundo tem um pouco que seja. Uns transbordam. Outros, sufocam o seu.
Eu creio que carisma é a expressão espontânea que a gente tem. Quanto mais genuína e individual, tanto mais visível. Quando a gente se reprograma, tenta se ajustar a modelos ou insiste em não se aceitar, o carisma fica invisível, insensível.
Carisma inventado é fácil de perceber. É maquiagem que escorre antes da festa começar. Quanto mais a gente resiste ao que é, menos mágica acontece e mais massa a gente se torna.
Carisma é o pó mágico que só cai nas cabeças que não desejam o chapéu dos outros. Que delícia é poder ser, agir, falar e se aceitar como é ou como está. A gente fica interessante! A gente então, exala carisma!
E que triste é ler e decorar toda a cartilha dos padrões de comportamento, preferências, moda, cultura e relacionamentos, e então, se espremer para se encaixar. É preciso deixar muitas coisas para trás, e com elas, o carisma, a cereja do nosso bolo. E bolo, diga-se de passagem, também não anda muito em alta nos padrões atualmente magérrimos.
Pessoalmente, tenho tentado o caminho de volta, buscando meu carisma perdido entre tantos outros sentidos e sentimentos exilados. Acho que vale muito a pena. Acho ainda que só valerá a pena, se for assim.

segunda-feira, junho 26

Enquanto brigamos, o tempo passa

Enquanto brigamos, o tempo passa. O tempo que não espera, não volta, não nos compensa.
E enquanto insistimos em gastar o tempo, brigamos, arrumamos pretextos para discordar, lutar para sermos proprietários de todas as verdades, todas as razões, todas as coisas que não conseguimos sequer carregar, nas mãos nem na consciência.
E a morte nos aguarda. Nos espera no final do tempo, aquele tempo que tínhamos de sobra, mas preferimos gastar com brigas, fofocas e desunião.
Essa é uma realidade incontestável. O tempo passa e nos entrega a morte.
Não só as brigas consomem o tempo, é verdade. Mas, de todas as opções por vontade próprias, esta é uma forte candidata ao lugar de mais tola.
Não falo de discussões e lutas por direitos. Isso é outra coisa. E muita gente boa já utilizou seu tempo para que nós, briguentos, desfrutássemos das conquistas.
Falo de brigas por poder, vantagens, territórios, espaços, razões, tudo o que nos coloca em posição de destaque, ainda que pelo lado mais desprezível.
O ditado afirma: – Dou um boi para entrar numa briga, mas dou uma boiada para não sair. – fala muito de nós, briguentos. Vamos às últimas consequências para levar para casa o troféu, ou os chifres, não sei. E, nisso, o tempo passou. Juntamos mais alguns desafetos para a conta. E menos algum tempo para a vida.
E a morte nos aguarda. Não importa de que forma levamos a vida. Ainda assim, ela vai nos levar. E ainda assim, escolhemos desperdiçar o tempo, brigando.
Batemos no peito orgulhosos e dizemos: – Sou pavio curto! E morremos, independente do tamanho do pavio. Aliás, independente de qualquer tamanho que possa se comparar.
Meu palpite: Correr das brigas. Correr para valer. Só ficar, se for por justiça. Só brigar, se for pela vida. Qualquer vida.
A morte que nos aguarde, como é a sua tarefa. E o tempo, que passe com prazer, assistindo o melhor que vamos fazer de nossas vidas.

quarta-feira, junho 21

Não me provoque, utilize melhor o seu tempo

Você que gosta de uma boa briga, de uma discussão sem fim, de um motivo para sacudir a paz, já aviso logo que sou presa difícil, escorregadia, ágil.
Não caio fácil nas armadilhas da provocação, não tenho menor interesse em demonstrar força ou razão, não me desgasto fácil nem alimento egos famintos.
Você que, entre sorrisos e palavras espinhosas, tenta, a todo custo instalar uma crise, faz revelações alheias e, depois, displicentemente fala que foi sem querer, sinto muito te avisar que não vai rolar. Eu não pago nada por essa briga.
Não me provoque. Utilize melhor o seu tempo, sua criatividade, seu desejo de ser o centro das atenções. Eu gosto é de sintonia, de identificação, de colaboração, de dar risada junto.
Provocação é uma das maneiras mais infantis de chamar a atenção. Uma sucessão de cutucadas inconvenientes e de mau gosto, que acabam por provocar uma reação bruta… ou não. Eu, particularmente, ofereço o silêncio como resposta.
Não me rendo à provocação, não me vendo à vaidade de desbancar um provocador. O desgaste é sem sentido e, afinal, vencer um embate baseado na provocação, é como finalizar um jogo que não se aceitou jogar.
Você que perde o amigo mas não perde a piada, se for de bom gosto, conte comigo para rir junto e ainda pedir para repetir. Mas, se sua intenção for provocar para então diminuir ou humilhar, então prepare-se para receber uma silenciosa e gelada indiferença.
Não perca seu tempo, não busque motivos nos outros para deixar a sua vida mais emocionante ou vitoriosa.
Aprenda a provocar-se de forma mais inteligente. Proponha-se deixar de lado a malicia de provocações sem propósito e, ao menos tente, participar de trocas e convivências mais generosas, onde a razão está com todos, e ninguém precisa competir por ela.