sexta-feira, março 17

Ansiedade, um combustível perigoso!

A ansiedade põe a gente de pé num piscar de olhos, orquestra movimentos rápidos, pensamento acelerado, curiosidade aguçada, tolerância zerada.
Se ansiosos por uma boa notícia, acordamos positivos, lépidos, energizados. Quando a ansiedade é por uma chegada, tomamos todas as providências possíveis, tratamos de arrumar e organizar, surpreender e adivinhar.
Ansiedade é combustível. Acelera, bota ordem, encadeia, encaminha. Ansiedade bem dosada, é um estimulante, a companhia perfeita da curiosidade.
Mas, como toda matéria inflamável, entra em combustão com a mínima fagulha. Uma incerteza, o menor atraso, um passo fora da linha, um retorno que não estava nos planos…
E a ansiedade vira incêndio, explosão e destruição. Fica fora de controle, do eixo, da respiração. Ansiedade descompensada agride, asfixia, deixa a vida imersa em fumaça, fuligem e sombra. Esconde o horizonte, fecha as cortinas, tranca as possibilidades e faz disparar o coração, até o ponto de explodir.
Como combustível, empurra!
Como explosivo, destrói!
Todo mundo carrega a sua quantidade de ansiedade, e controlar é tão difícil quanto identificar o que faz disparar. Assim como a agressividade, é quase impossível saber a faísca que provoca o fogo. Mas a luta é diária e sem descanso. O que nasceu para ser estímulo, não pode virar obstáculo.
Ansiedade é coisa séria e deve ser tratada como merece. Quem já viveu a menor crise, sabe o poder desse incêndio incontrolável, que consome todas as reações.
Ao menor sinal de que o combustível está fugindo do controle, o melhor é reduzir a marcha, desligar os motores, procurar ajuda e alternativas para manter a respiração na velocidade de cruzeiro.

sábado, março 11

Sobre sentimentos camuflados e trincheiras íntimas

Não quer dizer sim. Talvez quer dizer não sei. Sim quer dizer sim, estou livre para escolher. São muitos códigos, alguns sem lógica alguma, criados para não serem jamais decifrados.
Vivemos uma longa lista de sentimentos camuflados, entrincheirados, na tocaia, aguardando um momento de trégua para enfim, partir para a exposição.
Somos preconceituosos com nossos sentimentos. Somos antiquados. Somos reféns da opinião alheia, da aprovação dos chegados, da benção da família, do vizinho, da time line.
Curiosidades e emoções brotam fora da lógica de qualquer um, ganham vida nos devaneios e sonhos de realização. Mas, como não se enquadram nos padrões, acabam por se refugiar na trincheira dos segredos, alertas para não serem descobertas ou traídas por uma palavra, gesto ou olhar.
Lidar com esse time de intrusos que ameaça a normalidade das coisas é tarefa que exige coragem. Mandar embora sem tentar entender razões, pode ser uma porta escancarada para a entrada de frustrações pesadas. Negar, rejeitar, despachar, varrer… Cada um certamente sabe o que fazer com o que aparentemente não lhe cabe.
Preocupante é condenar ao descarte por razões externas. Por que não saber o que está de fato rolando com esse sentimento que a gente nem desconfiava que pudesse existir? Pode ser o surgimento de outro olhar para a vida, pode ser um tiro na água, pode ser qualquer coisa, mas certamente será mais um aprendizado na jornada do autoconhecimento.
Se conhecer é experimentar liberdade, é saber de si e ter consciência de que ainda há muito para conhecer. É usar espelho próprio e não o do outro, saber dos padrões, mas não usá-los como correntes.
Todo mundo guarda sentimentos camuflados e escondidos, velados, platônicos. Não mexer com eles é escolha. Vivê-los e arriscar o caminho desconhecido, também é escolha.
A escolha é sempre livre, soberana. Cabe a cada um decidir quando é a hora de tirar a camuflagem e declarar o fim da guerra interior.

sexta-feira, março 10

A vítima oportuna é poderosa e perigosa!

A vítima é sempre credora de algo. Desde um pedido de perdão até mesmo uma reparação pública. Na maior parte das vezes é a justiça atuando para deixar tudo no zero a zero novamente.
Mas o hábito de se fazer vítima em qualquer situação é pra lá de diferente das vítimas alheias à sua própria vontade. A vítima oportuna quer a atenção, a piedade, a preocupação, e, se possível, todas as reparações imagináveis. Justas ou não.
A vítima oportuna se veste de humilhação, se cobre com melindres e caminha pela estrada de lamentos e ladainhas. Mas não é fraca, não é humilde, não é inocente.
É cheia de poder e acumula créditos. É intocável porque é vítima. É credora porque lhe devem. É manipuladora pela voz que invoca piedade.
E quando algo parece não funcionar, ainda restam as lágrimas. As lágrimas que desarmam muitos e bons argumentos, que lavam e levam embora boa parte da razão, que derretem decisões e deixam arrependimentos espalhados como poças depois da chuva.
A vítima oportuna atua com as ferramentas que possui e vai construindo suas muralhas, até o ponto de ficar totalmente inacessível. Ceder às suas queixas é conceder-lhe cada vez mais poder.
É importante ser sensível aos dramas alheios, é essencial praticar a empatia, mas é absolutamente imprescindível tomar posição firme junto às vítimas oportunas. Não há liberdade nessas relações, a vítima é quem comanda, ainda que aparentemente ferida ou paralisada.
Quem quer ter boa relação com o mundo, com as pessoas e com a vida, precisa ter os olhos abertos para as vítimas oportunas. Boas intenções são como iscas que as atraem. Elas sabem que boas intenções não apertam o botão da desconfiança com facilidade.
São vítimas de si mesmas, ardilosas, criativas, golpistas. Vítimas que não se comprometem com nada já que são vítimas e vivem passivamente, aguardando chances para se agarrarem.
Em todos os casos, ao reconhecer uma vítima oportuna, não dê a ela a oportunidade de fazer moradia nas suas ocupações.

domingo, fevereiro 26

A vida está com mais pressa do que nunca

Passa como um trator por cima das horas, indecisões, dos suspiros e divagações.
Se você se sente confortável alimentando dúvidas e ponderações como quem vai todos os dias à praça para oferecer milho aos pombos, é bom lembrar que a vida passará tão tediosamente quanto essa rotina escolhida.
Se, por outro lado, você está confiante em pegar a vida no laço, fazer dela o que planeja e sonha, é possível que ela corresponda na mesma intensidade ou até mais, portanto, é importante ter onde se segurar quando os trancos vierem.
A vida responde às nossas provocações, mas vem com pressa, com urgência, e não costuma tolerar intenções desgovernadas, blefes, ameaças ou trotes. Bem tratada e respeitada, sorri e retribui sorrisos. Enganada, não há quem a alcance e a faça mudar de rumo.
Pense bem na aposta que está fazendo com a vida. Ela como parceira, corre para você; Como rival, te atropela.
A pressa é estratégica. Ela passa voando, nada a faz parar. Quem souber aproveitar, desfrutar, multiplicar, sequer vai sentir a velocidade. Quem preferir arrastar, frear, deixar no ponto morto, provavelmente irá carregar o peso do tempo nos ombros.
Em algum lugar da vida de cada um de nós há uma amizade, um afeto, uma figura do passado, de algum lugar distante precisando muito de um pouco da vida que podemos oferecer. E se, ao invés de tentarmos inutilmente brecar o tempo, nós o usarmos para esses resgates, reaproximações, companhias e recordações? A vida sabe o quanto isso é importante e nos brinda com momentos inesquecíveis.
E, por fim, se ela pudesse nos dar dicas de como aproveitá-la melhor, certamente diria para largarmos para trás o tempo gasto com futilidades e inutilidades, e nos agarrarmos nos mágicos momentos de convivência e troca com quem amamos e admiramos.
Aí sim, a vida vem e oferece uma garupa na sua moto, para a aventura de passar pelo tempo com muita vida!

sábado, fevereiro 25

Ensine para a sua solidão qual é o lugar dela

A solidão não se comporta bem nos encontros. Fale por ela antes que seja tarde. Ela tem necessidade de justificar sua condição, por vezes tímida, acuada, mas, em outras, até mesmo agressiva e mal educada.
Podemos ser solitários, mas jamais seremos somente isso. Solidão é uma condição complementar, não primária. Se ela tomar a voz em todas as decisões, acabará por nos soterrar e nos fazer dignos de piedade.
Todo mundo tem uma parcela de solidão na vida. Passatempos solitários, opiniões solitárias, sonhos, principalmente sonhos, adoravelmente solitários. Solidão não é virtude nem defeito. Só que é perigosa porque quer crescer e tomar um lugar e uma voz que nos afasta de tudo e todos.
É bacana conviver amistosamente com a solidão, Por vezes é melhor companhia e ainda nos conforta e aquieta. Mas jamais pode ela nos afastar do que precisamos ou queremos.
Quando a solidão encontra a carência, ela devora. Se for com a indiferença, ela repele. Com o amor – e por mais que ela tenha vontade de se entregar – ela vacila. Sabe que pode vir a ser o seu fim. É hora de entrar em cena e tomar o controle das decisões. O amor chega, pede para ficar, mas dificilmente entra em luta com a solidão.
Amor é janela aberta, solidão é portão trancado. Se não se passa sequer do portão, jamais se saberá a vista que a janela oferece.
Mas, por gratidão ou educação, é sempre bom lembrar as contribuições da solidão em cada vida. Momentos únicos para tentar decifrar os códigos de convivência, instantes de lembranças mágicas, ideias nascidas do silêncio. Má a solidão não é. Um pouco devoradora, talvez.
Se estiver bem educada e ensinada a ter seu próprio lugar, as chances de que cresça além da conta diminuem muito, e, com sorte e um pouco de amor, é possível que ela ignore as ameaças à sua sobrevivência e se transforme em outra coisa, uma pequena e saudável escapada, por exemplo.