sábado, janeiro 14

Quando eu disse sim ao meu corpo!

O corpo fala, comunica, tanto seduz quanto repele, suplica, ordena, humilha e se submete. O corpo se manifesta de várias maneiras, até quando tenta se esconder.
O corpo ganha voz quando a boca se cala, perde o controle quando se embriaga e os sentidos quando se acovarda.
Tem gente que não aceita o corpo. Convive com ele em estado de tensão e constante conflito. Não é mais um instrumento divino que abriga tudo o que se é. O corpo se torna um inimigo para a toda a vida, e, como castigo, recebe maus tratos e grande desprezo.
Tem gente que deseja o corpo alheio, persegue o modelo dos sonhos com tamanho fanatismo, que distorce o corpo até as últimas forças e dotes naturais.
Tem corpo que parece não ter gente dentro. Tem gente que parece não ter corpo que a prenda.
Eu vivi boa – e bote boa nisso – parte da vida em luta com o corpo. Até os dias de hoje ainda discutimos nossa relação, mas agora em outro nível, um querendo bem ao outro.
O dia em que tomei posse definitiva do meu corpo, não lembro. Mas, sutil e curiosamente, um dia percebi que não era mais tempo de briga. Tinha chegado o momento de fazermos as pazes e nos ajudarmos mutuamente.
O espelho ficou fora da conversa. Um objeto jamais poderia ter voz de comando nessa relação, e ele teve, por décadas. Não só ele, mas as revistas, as novelas, os anúncios e as fotografias. Todos, com intenção ou não, contribuindo para ficarmos “de mal” por muito tempo.
Por isso, nenhum deles foi consultado quando resolvemos nos entender. O corpo parou de lutar para contra minhas investidas e eu, abri mão de tentar faze-lo ser o que jamais será.
Tomei posse do que é de fato meu e dele cuido como achar melhor.
E, juntos, não caímos mais nas manipulações e sugestões que escondem o tempo passando e a vida escorrendo, enquanto corremos em direções contrárias.
De agora em diante, melhores amigos! Saúde!

quinta-feira, janeiro 12

Não espere ver o outro sangrar para constatar que machucou

Não aguarde muito tempo para deixar a consciência falar e trazer as malas pesadas da culpa. Não conte com o esquecimento alheio. Quem é ferido não esquece fácil, porque a dor não deixa.
Se num momento de raiva você machucou alguém, o momento imediatamente seguinte deve ser dedicado ao retorno do equilíbrio, às desculpas e consolo de quem foi injuriado.
Não espere o sangue aparecer para se dar conta que feriu alguém. As feridas secas e sem hematomas são as que mais doem. E as cicatrizes fecham e depois abrem novamente, para se alimentarem de rancor e, muitas vezes, vingança.
Não ouse achar que o perdão já está garantido. Não recolha suas pedras atiradas contando piadas. Não faça pouco caso do que o outro sente quando ferido.
Muitas vezes, ser machucado não é tudo. Ainda pior, é sê-lo por você, de forma inesperada. A confiança despedaçada, a espontaneidade que dificilmente retornará, a má impressão que sempre acompanhará…
Os grandes feridos dão entrada nas emergências de hospitais buscando cuidados urgentes, de quem estiver de plantão. Os profundamente feridos, caem num precipício profundo e cheio de ecos. Caem de susto, de tristeza, de incredulidade e decepção.
Não seja você a criatura que empurra. E, se por infelicidade ou incapacidade o fizer, trate de pular logo atrás, com um corda bem grande e pesada, e traga de volta, nem que seja nas costas, quem foi ferido por suas razões.
Não se iluda ao acreditar que agressões, veladas, silenciosas, vociferadas, enganosas, maldosas, não trazem de volta sérias consequências.
No calor do momento, escolha não ser o agressor. E se esbarrar com alguém sangrando, ofereça um curativo.

terça-feira, janeiro 3

Capriche nas promessas de final de ano!

Prometa para si, jamais para alguém! Por si e por mais ninguém.
Prometa mesmo um monte de coisas! Quem sabe algumas delas cheguem a ser cumpridas. A vida é assim mesmo, de certezas e desistências, de resoluções e ponderações, “agora vai” e “não foi dessa vez…”
Voltar atrás é escolha, desistir é processo, desfocar também é ponto de vista.
O segredo é saber o que tem margem de negociação. A ferro e fogo ninguém vive e essa coisa de manter o foco pode ser repressora, dependendo da dose. Nosso melhor caminho é o que nos faz livres e autônomos. Quando escolhemos renunciar a alguém ou alguma coisa, sabemos ou ao menos desconfiamos das consequências, mas ainda assim pagamos para ver.
E crescemos com os acertos, e, mais ainda com os erros. O tempo é que passa e não volta, talvez a maior das perdas. A equação tem esse elemento de de peso forte!
As promessas sofrem ajustes e desgastes com o passar do tempo.
Então, para otimizar a lista de promessas de final de ano e ainda ficar de bem com o tempo que nada espera, aí vão sugestões de quem já deixou de cumprir as mais comuns e convencionais:
– Não prometa dieta. Prometa se apaixonar. Por si, por alguém, por uma causa, pela vida que quer ter. O corpo responderá feliz!
– Se você não faz o tipo fitness, não prometa academia cinco vezes por semana. Ao invés disso, prometa comprar uma bicicleta, um patinete, jogar bola com os filhos, nadar, caminhar, respirar, dançar, se valorizar!
– Prometa todas as reconciliações que estiverem pendentes, todos os perdões a dar e pedir, todos os polimentos nas relações que estiverem arranhadas!
– Não prometa adquirir mais itens de consumo do que lugares a conhecer, amizades a fazer, lembranças a colecionar.
– Prometa por fim, jamais cumprir uma promessa absurda, que não seja em favor do seu crescimento, paz e saúde para desfrutar a vida, nem mesmo em nome de um amor – que não sobrevive apenas de promessas.
Feliz Ano Novo! Que as boas promessas se realizem e, as nem tanto, a onda leve!

Quem povoa os salões da sua saudade?

Saudade é um sentimento estrangulador. Saudade faz rir e faz chorar, dá medo e coragem, acorda e desmaia.
Saudade boa, nostalgia, nuvem de lembranças e tentativa de revivê-las.
Saudade triste, melancolia, momentos que ainda não cabem nas gavetas da memória sem doerem um tanto.
O que provoca saudade? Tem saudade de gente, de tempo, de lugar, de cheiro, de som, de alegria e até de dor.
Quem vive e frequenta os salões da sua saudade?
Na minha saudade mora gente que jamais se conheceria, mas hoje povoam o mesmo salão. Na minha saudade dançam figuras do passado, danço eu mesma de outro jeito, desfilam pequenos momentos que me arrancam suspiros, passam cenas impregnadas de memórias.
A saudade tem poder de dominar os pensamentos por um instante. Quando se sente saudade, não se sente mais nada, não se pensa em mais nada, não se ousa reagir.
Depois de passada, a saudade deixa um desejo de reação. Se não se pode acabar com ela, é preciso falar dela. É urgente contar a alguém sobre ela.
A saudade vem e nos traz a certeza da vida que já vivemos, da saudade que também provocamos, do tempo que está passando, do pouco que nos comprometemos.
Viver de saudades é duro. O tempo passa mais rápido de propósito, só para provocar mais saudades.
É hora de olhar para dentro dos salões da sua saudade, identificar rostos, lugares e oportunidades. O que não vai mais voltar, vai ficar na saudade. O que der para recuperar é tarefa para agora! O tempo não aguardará a saudade passar.
Entre nesse salão, e se a porta estiver fechada, entre pela janela, pela chaminé, pela saudade de quem está lá dentro, e resgate o que for possível. Liquide a saudade em vida, para que ela fique somente com o que já não pode mais retornar.

Por que a dor conecta mais do que o amor?

A dor é sentimento que não se compartilha. A solidariedade se aproxima da dor para ficar juntinho, oferecer seu carinho, não deixar a solidão se aproximar muito. Mas a dor é de quem a abriga. Ninguém quer sentir dor, mas ela vem. Ninguém quer a dor do outro, mas quer estar por perto, consolar, aguardar o alívio.
A dor conecta as pessoas mais do que a amor. Talvez porque o amor caia nas teias da desconfiança. Talvez porque o amor se apresente contagioso, divisível, enciumado, egoísta, tirano, inseguro…
O amor tenta ser compartilhado de vários jeitos, mas não encontra tanta e tão rápida adesão quanto a dor. Vê-se um movimento muito mais agregador em torno da dor. A dor amolece os corações. O amor, nem sempre. A dor evoca a generosidade. O amor, nem sempre. A dor cria heróis e mitos. O amor, nem sempre.
Que medo é esse que se tem do amor? Dizem que as pessoas se afastam do amor para evitar a dor. Mas, depois recorrem a ele para aplacar a dor. A dor de outro, mas ainda dor.
A dor que machuca e faz sofrer em um, inspira amor e solidariedade em outro. O amor que anda disponível e faminto por aí não interessa a um nem a outro. É bonito de ver, e só.
O mundo é muito louco mesmo. Quanto mais dor, mais amor. É por ela que ele se conecta.
A pergunta que fica é: Por que a dor conecta mais do que o amor, se o amor é capaz de evitar tanta dor?