quinta-feira, março 3

Sobre aprender a ouvir sim como resposta

Não, definitivamente não estamos acostumados a respostas positivas e espontâneas. Nosso processamento mental já aguarda aquele não de pronto e se antecipa, encadeando argumentos e longas discussões. É um tempo brutalmente coagido a traçar estratégias de defesa e contra ataques, antes mesmo de a frustração ocorrer. Somos esses, os que preferem franzir a testa e retesar os músculos.
Ouvir um sim é estranho nos nossos tempos. Quando isso acontece, a maioria de nós pergunta: – Tem certeza? – Você prestou atenção no que eu falei, ou pedi, ou provoquei?
E então aparece uma alma nada a fim de entrar no jogo duro e diz de pronto, e, por vezes, sorrindo: – Sim, eu posso fazer isso; – Sim, eu estou tentando entender; – Sim, não vejo nenhum problema.
Aí tem problema! Como assim, sim? Não vamos nem pelejar um pouco, defender territórios, atiçar as fraquezas? Esse sim veio tirar toda a graça do atrito, do tempo que seria gasto com discussões por razões, sem razões, pelo prazer de conquistar-se uma razão, mesmo que não faça sentido nem razão.
E tem gente que diz muito sim! A vida vive dizendo sim! O tempo não para de dizer sim! O batimento do nosso coração, enquanto trabalha, está dizendo sim!
Sim para o que pode ser sim, não para o que a gente quer. Não para a criança mimada e egoísta que a gente costuma abrigar dentro da gente, em corpo e comportamento de adulto que sente muito prazer em dizer não, e não sabe mais ouvir um sim sem se espantar e se indignar.
Aprender as ouvir um sim como resposta; Aprender a apreciar o caminho que não ofereceu barreiras; Acreditar no próprio julgamento sem as restrições prévias; Pensar, racionalizar, sentir e desfrutar cada porta que o sim abre, porque, como se diz por aí, o não a gente já tem.
Publicado em Conti Outra em 03/03/2016

domingo, fevereiro 28

Porque é vital saber o seu valor!

Ah, que delícia ouvir um elogio, uma boa coisa dita a respeito do que a gente é, ou pensa que é, ou se esforça para ser.
Sem dúvida, um prazer imenso, um carinho, um conforto incrível. Ser aceito, se parte integrante, se destacar, ser revelado…
Mas, e se nada disso acontecer, de onde virá o alimento, a massagem, a confirmação das qualidades? Num mundo de tantas competições e engodos, como fazer para sustentar certezas mínimas, demarcar um espaço próprio, uma identidade válida, sem o aval alheio, sem o espelho que revela e compara?
Ainda pior, com a mesma intensidade que nos chega uma manifestação de orgulho, também pode vir uma humilhação, uma ofensa, uma calúnia, ou simplesmente uma verdade que ainda não se está preparado para digerir. E o efeito contrário vem com tudo, desmantelando, desorganizando, desestruturando toda uma construção erguida a duras penas, frágil e impotente por depender do sustento alheio.
Valorizar-se não é inchar e se vangloriar de qualidades, nem tampouco lacrar os ouvidos e o entendimento às críticas e julgamentos.
Valorizar-se é construir um teto firme para a alma, que a proteja das chuvas de injustiças e também dos ventos traiçoeiros das adulações. Valorizar-se é descobrir o valor que se possui e não permitir negociação abaixo, nem sob a maquiagem da ilusão vaidosa.
Não acreditar em tudo o que é dito a seu respeito, não se contaminar com o veneno lançado, não se viciar em promessas de beleza e perfeição.
Ao contrário, conhecer e muito bem suas limitações, imperfeições e fraquezas, e, ainda assim, se respeitar e entender a necessidade tantas vezes ignorante e tola de querer ver-se por outros olhos, outro olhar.
Essencial é viver e conviver com os afins, os diferentes, os afetos, os obrigatórios, os superiores, os dependentes, enfim, com o mundo onde se habita.
Essencial é garantir respeito e respeitar como garantia e compromisso de reciprocidade.
Essencial é transformar um comentário idiota em poeira que o vento leva, guardar na memória uma palavra amiga, um conselho de quem nos quer bem.
Ainda que se diga o contrário, ainda que se demonstre em exagero, ainda que o espelho esteja turvo e os apelos de fora gritem forte, vital é descobrir, proteger, fazer crescer e compartilhar o próprio valor. Fora disso, tudo é ruído.
Publicado em Conti Outra em 28/02/2016

sábado, fevereiro 27

A vida é troca infinita

Se for para trocar ideias, compartilhar a tarde, o vinho, o chocolate, as risadas, conte comigo! Se for para oferecer um abraço, um bom e paciente ouvido, um conselho amigo, um guarda-chuva emprestado, tudo bem, conte comigo. Se for para assistir um filme, partilhar a pipoca, as críticas e opiniões, defender as preferências, confessar medos e segredos, ainda assim, conte comigo.
Conte comigo como eu conto contigo, para beber da fonte da vida sem fechar a torneira nem tampouco provocar enchentes. Conto contigo para andar ao lado, lembrar de mim quando fico para trás, dar aquele toque necessário quando acelero demais.
Conte comigo com liberdade, sem reservas nem melindres. Se ouvir uma negativa, entenda que faz parte da vida. Da mesma forma tentarei entender também, porque, muitas vezes esperando ouvir um sim, fui embora para casa carregando um não, ou, um nada. E, acredite, sobrevivi.
Conto contigo para enxergar a vida por outra ótica, comparar com a minha forma de ver, tirar o melhor dos dois mundos e usufruir dessa vantagem de crescer junto.
Só não conte comigo se tiver intenção de absorver, de sugar, de pegar para si o que me pertence, de me descompensar, de exigir o que não foi oferecido. Para todas as opções anteriores, permaneço emocionalmente indisponível.
E espero com todas as forças que, se for eu a pedir qualquer regalia abusiva, que me depare com uma grande placa com letras pintadas em vermelho: Emocionalmente indisponível.
Não se pode nem se deve colocar qualquer emoção a serviço de carências alheias, de sentimentos mimados, desejos que não sabem ser contrariados. Para apelos obtusos, portas fechadas e nenhuma culpa.
A vida é troca infinita. É um ganha-perde saudável, sem exploração nem extorsões. De outra forma não é troca, é barganha. É escravidão, coação, chantagem, sadismo. E estar emocionalmente disponível para quem barganha e negocia a vida alheia, é pular de cabeça em um poço vazio, andar por caminhos escuros e frios, jogar-se no nada, deixar-se levar.
O desafio é enorme, mas com um pouco de bom senso e moderação, vamos aprendendo pouco a pouco a dosar a disponibilidade das emoções. Como no mundo dos negócios, um acordo só é bom se o for para ambas as partes. Se assim não for, que suba a placa vermelha indicando total indisponibilidade.
Publicado em Conti Outra em 27/02/2016

quinta-feira, fevereiro 18

Eu escolhi viver num mundo onde tudo é possível

É possível que alguém acredite no bom senso num mundo como o de hoje?
E na palavra de outro alguém? E nas intenções? Na vontade de fazer o certo?
Geralmente se acredita no que convém, no que parece mais com a verdade e senso de justiça que se conhece.
O mundo encolhe ou se expande no ritmo de cada respiração, de cada arquear de ombros ou dobra de joelhos.
Eu escolhi viver num mundo onde tudo é possível. Um mundo que me convém, que me permite olhar para tudo e me fixar somente no que me interessa, um mundo que eu não conheço mais pelos jornais, mas também não faço uso de suas notícias para vomitar revolta nem desesperança.
Escolhi o mundo que se relaciona comigo, que me oferece ferramentas para crescer, instrumentos para trabalhar. Não olho mais para o mundo distante que não faz parte da minha existência. Não quero entender de tudo, não preciso saber de tudo, não me interessam competições, gincanas, corridas. Só encararia a corrida contra o tempo, de tanto gostar do meu mundo, mas em briga perdida não se entra.
Eu escolhi o mundo de pessoas que olha profundamente nos olhos de seus semelhantes, de gente que se esforça para ser mais do que um espantalho enfeitado no milharal, que não tem medo de abrir mão de coisas em favor de pessoas, que coloca o dinheiro no seu devido lugar e que acredita que poder mesmo só tem que é livre!
No meu mundo, ninguém maltrata gente nem bicho.  Nesse mundo a gente troca fácil uma festa pomposa por aquela reunião barulhenta de amigos, com direito a confissões e gargalhadas até a barriga doer.
E quem vai me condenar por escolher e decorar o meu mundo da forma como quero vê-lo? Mais fácil batalhar essa utopia do que tentar se enquadrar no mundo como ele é. Mais lucro mudar um milímetro de mundo, do que comprimir uma vida inteira no milímetro que conseguiu vislumbrar, de muito longe.
E só para terminar, no mundo que eu escolhi viver, há dor, sofrimento e morte. Mas, sendo nele tudo possível, é possível também que eu entenda que tudo isso é perfeitamente normal, não coisa de outro mundo.
Publicado em Conti Outra em 18/02/2016

quarta-feira, fevereiro 17

Corações sujos

Sair de casa com a roupinha cheirosa, sapato limpo, tudo arrumado e no seu lugar, e, no meio do dia já parecer um boneco amarrotado, é da vida. Para permanecer impecável, não se pode sair da vitrine. Esse é o ciclo suja-limpa-suja de todos os dias, com o corpo, as roupas, a casa, as ideias, as meias, as palavras.
A sujeira em si não é nada, é fuligem, poeira, voa para longe num sopro mais forte. A permanência da sujeira é que a fortalece, cria visgo, adesão, crosta.
Um sapato muito sujo ainda pode ser lavado e esfregado até que fique limpo novamente, embora com manchas e partes desgastadas.
Para um coração sujo não há alvejante no supermercado. Para décadas de depósito de poeiras e sujeiras, não há equipamento que aspire nem lave.
Alguns corações são sujos porque se permitiram virar depósito. Outros porque sentiram preguiça de efetuar as limpezas regulares, não encarando o lixo acumulado. Outros ainda talvez nem reparem, talvez pensem que está bem assim, que é normal olhar pela janela “cinzenta” e não enxergar o céu azul.
A limpeza de um coração exige renúncia. Renúncia ao lixo que virou escudo, cortina, fechadura.
Um coração sujo contamina os demais, exala veneno e ar tóxico, nem sempre porque quer, mas porque não sabe fazer diferente.
Como uma casa inabitável, um coração sujo precisa de faxina, de reforma, de uma grande caçamba na porta que caiba tudo o que não deve ficar mais, de um incinerador de mágoas e cobranças, de uma boa mão de tinta depois de lixado e lavado.
Não se condena uma roupa ou um sapato ao lixo porque estão sujos. Tampouco uma casa. O trabalho pode parecer impossível. E para alguns corações, é impossível mesmo dar conta sozinhos.
É preciso pedir ajudar. Família, amigos, profissionais, estudos, viagens, músicas, exemplos… Todo recurso é bem-vindo.
Ajudar um coração sujo a reaver sua cor e seu vigor é contribuir para a limpeza e manutenção do seu próprio coração, é entender o que quer dizer esse símbolo usado mundialmente para expressar o amor.
Publicado em Conti Outra em 17/02/2016