domingo, fevereiro 14

Que toda criatividade possa ser festejada

Criar, conceber, idealizar, copiar de uma outra forma, dar uma pincelada pessoal na tela que começa a amarelar…
Usar os recursos disponíveis e o momento de inspiração para produzir arte, soluções, respostas, provocações, inquietações, devaneios…
A criatividade é um mundo maravilhoso e acessível a todos, muito embora creiamos que seja dom de poucos e só seja justo validar as realizações mais notáveis.  Uma lástima, já que ela se apresenta em situações tão mínimas quanto delicadas e sutis.
A criatividade exige que deixemos a timidez de lado um pouco. Ela ordena que experimentemos algo sempre diferente, que escolhamos caminhos nada óbvios e, portanto, insondáveis à primeira vista.
Em troca, ela nos devolve uma resposta original, uma certeza individual, a sensação de que o impossível é uma enorme mentira inventada pela preguiça.
Quando sondamos soluções pelo olhar criativo, nos alegramos, sentimos esperança, nos acreditamos inovadores, desbravadores, empreendedores.
A criatividade é uma aliada, uma parceira multitarefas, e quando mais a convocamos, tanto mais rápido ela se apresenta com desenvoltura e beleza.
Aquela velha máxima que quase todo mundo já ouviu na vida: “você não consegue fazer isso ou aquilo”, é certamente uma porta batida na cara da criatividade. Ela até quer sair, mas não encontra uma brecha, é sufocada e não consegue se expressar. E as consequências são tristes, rotineiras, repetitivas, enfadonhas, desesperadoras.
Vida sem criatividade é vida sem cor, sem perfume, sem emoção. Se a vida passar por uma crise, é possível que desça toda a escadaria do sofrimento antes de cogitar uma saída criativa. Se a vida estiver sem graça e previsível, é certo que passará voando, como uma folha ao vento, sem sequer ser notada.
Gosto de pensar na criatividade como um bando bem grande de vagalumes que vivem dentro das mentes. Quanto melhor o ambiente para viverem, mais se multiplicam e iluminam as dúvidas da existência. E clareiam soluções.
E se não há solução pelo caminho da direita, deixemos a criatividade mostrar as outras possibilidades. Há surpresas inesperadas aguardando para serem festejadas!

quinta-feira, fevereiro 11

Que bom que te decepcionei

Você que esperava uma lealdade cega, aquela obediência conformada, nenhuma contrariedade e jamais uma negativa… Decepcionei? Que bom.
Você que contava com uma dedicação integral, uma consideração infinita, a compreensão do incompreensível… Decepcionei? Que bom.
Você que tinha absoluta certeza de que suas fotografias, lembranças, maus feitos, covardias e ausências seriam guardados na mais cor de rosa caixinha de recordações… Decepcionei? Que bom.
Você que cresceu e inchou, se tornou maior do que a porta por onde deveria passar e ainda assim acreditou que seria uma obrigação te seguir… Decepcionei? Que bom.
Você que manipula fraquezas, que trata relações como via de mão única, que pede muito e pouco oferece, que não mede prejuízos para satisfazer vontades, não se aproxime porque vou te decepcionar, com muito gosto!
E se em algum momento a dúvida sobre fazer o certo ou o errado se instalar, uma dica valiosa é pensar nas pessoas que precisamos decepcionar, pois do contrário seremos como elas, o que não admiramos, não queremos, não devemos.
Decepcionar é um bom termômetro.  Decepcionar a vaidade, o egoísmo, o egocentrismo, a avareza, o desamor… Se estamos nesse caminho, a coisa esquenta, o jogo fica mais justo, os retornos acontecem, os vampiros ficam para trás. E o julgamento fica mais claro. A capacidade de separar o que interessa, o que vale, quem fica, quem sai, quem soma, quem vale zero.
Tudo é questão de critério e também de responsabilidades. Se escolhermos a face da lamentação, seremos muitas vezes decepcionados. Não esperávamos, não poderíamos acreditar…
Mas, se preferirmos a versão da ação, de bancar um julgamento decepcionante, então estamos na posição de quem sabe com quem lida e, por não partilhar das certezas, decepciona e segue a vida.
E a vida segue, tanto para os que agradam como para os que decepcionam.
A escolha é pessoal e cada um tem seus motivos. Há quem prefira perder a liberdade, as forças, a saúde, a razão.
No meu caso, e se o seu caso de alguma forma me fere, decepcionei? Que bom.

Publicado em Conti Outra em 11/02/2016

terça-feira, fevereiro 9

Ansiedade, a fome que não sacia

Não é possível esperar as notícias chegarem, não é cabível aguardar respostas e decisões, não é viável deixar simplesmente o tempo passar.
Aquela fome que vem repentina e cortante, insuportável, dominante. E com pressa. Se alimenta vorazmente de perguntas, de promessas, certezas, suores, bruxismos, caretas, suspiros…
A ansiedade é aquela fome que consome o bom humor, o bom senso, totalmente sem paladar, que nada sacia e volta sempre com mais fúria.
Algo vai acontecer, é uma certeza. É imperioso adivinhar, solucionar, remediar.
O tempo vai mudar, é preciso prevenir, se antecipar.
Fazer estoques, levantar muros, cavar trincheiras, comprar cadeados, correntes, munição, bombardear o coração com taquicardias insuportáveis.
– Respire, segure o ar, solte. Novamente! Está passando, não vê? Aliviando, te soltando, liberando…
É um conforto, como uma sopinha quente, mas lá vem a fome de novo. A sensação foi tão boa que, por medo de deixá-la passar, a ansiedade voltou correndo, como um bebê carente para o colo dos pais.
Ansiedade é fome mas também é alimento. Alimento para neuroses que nos empenhamos em engordar, alimento para paranoias que amamentamos com carinho, um doce fabuloso para oferecer ao medo de se colocar em equilíbrio perante os desafios da vida.
Ansiedade é veneno. Veneno que quando não mata, fragiliza cada fibra, contamina a alma, descompassa o corpo. Gera tiques, tremores, síndromes e consome a vida de uma forma nervosa e danosa.
E tudo um dia chega ao fim, e, se ainda não chegou é porque ainda não está no fim, a ansiedade ainda é uma grande mentirosa, pois que promete a adivinhação e prevenção do final.
Grande e voraz, essa fome insaciável necessita imediatamente de tratamento, de educação, de conhecer o seu lugar e somente atuar nos momentos inevitáveis.
Em todos os casos contrários, ela nos devorará, sem piedade.
Publicado em Conti Outra em 09/02/2016

sábado, fevereiro 6

Deixei de ser satélite para virar planeta!

Antes eu orbitava os outros planetas, aqui e ali, totalmente entregue às forças de atração, e me chocava, me machucava, esbarrava, perdia a rota e a linha.
Manter uma órbita é coisa complicada se isso depende de órbitas alheias e fenômenos que não nos cabe explicar ou entender. É íntimo, é particular, não é da conta de ninguém. Ser satélite é ser coadjuvante de uma trajetória já plena e autônoma, é apertar o passo para acompanhar um ritmo indiferente, é frequentar uma estrada como presença convidada mas não essencial.
E se isso não for um problema e não trouxer outras ânsias ou frustrações, que seja assim por muito tempo.
Desse jeito eu escolhi ser por uma boa porção da vida, mas, como todo mistério da vida e dos aprendizados, em algum momento achei que ser satélite era pouco. Achei até que era cruel. Orbitei por tempo demais em planetas egoístas e narcisos; escolhi a luz alheia para iluminar o caminho, pensando ser seguro e confortável; entreguei decisões e direções a interesses que afinal não me incluíam, apenas me permitiam andar por perto.
E um dia, um ano, um momento do tempo que não se prende a nada nem ninguém, escolhi sofrer a dura e penosa transformação, a morte do que era para o nascimento do que queria ser. E por vezes voltei às órbitas antigas e conhecidas, já sem desenvoltura e cada vez trombando mais e mais com a realidade que nunca me apoderei.
Por fim, e ainda bem, aquela transformação sonhada e ensaiada um sem número de vezes aconteceu, e, alegremente deixei de ser satélite para me tornar um planeta.
Os desafios são outros agora, assustadores e de tirar muitas noites de sono:
Definir uma órbita própria; não criar dependências nocivas; ter o tempo como aliado e não como inimigo; valorizar e cuidar de cada conquista particular; ser um lugar confortável para quem quiser se chegar e somar; e, gerar a própria luz, sem descuidar dos ciclos de sombras e escuridões necessárias.
Agora, como planeta, é possível ver com clareza as estrelas e luas que sempre estiveram por perto, embelezando o céu de quem escolhe a sua própria órbita.
Publicado em Conti Outra em 06/02/2016

quarta-feira, fevereiro 3

Se console, mas não se conforme

Das tantas e tantas inquietudes e inconformidades que experimentamos na vida, jamais conseguiremos resolvê-las na totalidade. É praticamente impossível almejar esse resultado, levando em conta todas as variáveis envolvidas: As outras partes, o humor do momento, a palavra usada, a palavra calada, a palavra ouvida, a decisão de ir ou de ficar, a obediência ou a falta dela, os recursos, as carências…
Para algumas situações conseguimos conforto, consolo. Em abraços amados, em ombros queridos, em palavras amigas, lágrimas escondidas, mensagens nunca enviadas. Um alívio para a famosa e dolorosa pressão no peito, o escape da panela de pressão que atormentava a tempos com seu chiado constante. Na verdade, se não houver consolo, não haverá contrapartida e só conseguiremos enxergar a perda, o prejuízo. Mas consolo não é solução. É analgésico, é gelo na torção, é lenço de papel, é um sorriso confiável para seguirmos em frente.
Não há parada permanente no consolo de uma dor. Isso é ilusão.
Depois do consolo há o entendimento, a contagem dos danos, a reparação dos erros, o perdão dos malfeitos alheios, o pedido de perdão pelos próprios malfeitos, a nova tentativa, a forte e inalienável experiência conquistada a duras e dolorosas penas.
E, se o que queremos é seguir adiante, partimos mais fortes e mais corajosos a cada queda, no começo mancando, patinando, derrapando. A atitude definirá a porção de medo que terá permissão para nos acompanhar.
E, sem aviso ou qualquer dica, em algum momento estaremos inteiros novamente, lutando ainda com mais força e destemor, pois se há um reconhecimento positivo em todas as perdas e dores da vida, é essa saudável inconformismo que nos impede de ficar estagnados nas almofadas fofas e suaves dos breves consolos da vida.
Viver requer muito mais do que essa frágil troca.
Há uma infinidade de combinações e possibilidades de caminho. E que haja sempre um gelo e um lenço de papel oferecido por mãos amigas para enfrentarmos os tropeços desses tantos caminhos.
Consolar-se sim, faz bem, mas passa. conformar-se, nunca!

Publicado em Conti Outra em 03/02/2016