segunda-feira, novembro 9

Você sabe quem anda ao seu lado?

Quando você esvazia a carteira, retira os acessórios, cala as frases de efeito, apaga os sorrisos diplomáticos, quem está ao seu lado? O que sobra para você? Quem afinal é você?
Isso não é uma provocação, nem sequer uma afirmação de que sem o verniz social não sobra nada. É sobre justamente o oposto. Quem somos quando não precisamos provar nada a ninguém?
Uma pergunta daquelas que só se responde a si mesmo, a mais ninguém.
Mas necessária. Vital. Precisamos saber com quem andamos fazendo tratos na vida, precisamos avaliar de quem realmente precisamos por perto, quem faz nosso coração bater mais rápido mesmo sem celebrações ou conquistas, apenas por puro afeto.
Quando retiramos a maquiagem, vemos as imperfeições que tentamos esconder, reconhecemos nosso rosto original, aceitamos que ao natural somos a pessoa que vemos no espelho e nenhuma outra mais. Assim é a nossa vida, que inúmeras vezes retira a nossa pintura, nos deixa tão descoloridos, quase nada…
E quando nossa alma está nua, quando passamos pelas mais difíceis fases da vida, quando o sol não entra na nossa janela, quem somos para nós mesmos e para quem cultivamos uma vida de relações? Quem estaria ao nosso lado, quem nos ofereceria um abraço para abrigar, o ombro para chorar, o tempo, os recursos, a alegria para dividir?
É importante fazer uma análise antes de proferir acusações e lástimas, pois, sejam quem forem os nossos afetos e as expectativas que colocamos neles, lembremos sempre que nós os escolhemos e nos ligamos a eles pelo que achamos importante no momento. E se o importante hoje não for o bastante, é porque eles não conseguem reconhecer quem somos quando não somos nada, quando estamos sem maquiagem.

Barbosa, o boêmio irresistível!

E lá estávamos nós, ouvindo uma música boa, comendo igualmente bem, tomando uma sangria duvidosa, e, só para rimar, eis que aparece Barbosa!
Barbosa chegou gingando, com sua camiseta de praia, chapeuzinho de malandro e muita cerveja na alma, pronto para causar! Minha amiga-irmã que de antipática não tem nada, já estava estampando seu melhor sorriso, embora sem noção do que a esperava. 
Barbosa se instalou ao seu lado e queria conversar, queria ficar juntinho, falar dele, do quando era apaixonado pela cidade, de como levava bem a vida, e que vida boa, segundo ele! 
Barbosa, no alto dos seus oitenta e tantos, calculo eu, era realmente assanhadinho, e mesmo depois de uns passa-fora, continuava por perto, voando como uma mosca de padaria, sempre atento, tentando fazer seu olhar cruzar com alguma canditada. Nem precisava ser uma de nós. Barbosa parecia decidido a não passar a noite sozinho. 
E nós naquela mesa, apesar de nos intitularmos mulheres independentes e tudo mais, não queríamos arredar o pé, com medo de Barbosa voltar e investir novamente com todo o seu charme e malícia. O pessoal da mesa de trás ria até não poder mais, da nossa saia justa. 
Barbosa me deu uma bronca porque eu não largava o celular. 
- Escuta aí, você vai ficar usando esse negócio o tempo todo?
- Vou sim. (seca e nada simpática, estratégia para afastar Barbosa).
Mas ele não saiu. E repetia como era apaixonado pela cidade, como gostava da noite, como era feliz, como minha amiga precisava conhecer Salvador. Barbosa é baiano, mas um dos mais rapidinhos que já ví. Foi logo listando para minha amiga a sua vida de aposentado do serviço público, e que vivia muito bem, tinha uma casa no Morro de São Paulo e por aí vai, porque vantagem, quando a gente quer, não acaba nunca. 
Por fim, Barbosa, depois de saracotear pelo salão inteiro, dançar com uma e com outra, beber mais umas tantas e sorrir até para as pilastras, não se conteve e voltou à nossa mesa. Direto e sincero, ele disparou para a minha já não tão sorridente amiga:
- Eu me apaixonei por você. Você é encantadora! 
Ela mais que depressa pediu a conta e saímos antes do show acabar. Ah, Barbosa,mas cá para nós, eu acho que ela te correspondeu, só ficou meio tímida. Aguarde, voltaremos!

quinta-feira, novembro 5

Passional, racional, emocional. Respeitadas as proporções, a mistura fica sensacional!

Num mundo onde todo mundo anseia por respostas, os rótulos e carimbos são praticamente impossíveis de dispensar. Nós nomeamos e somos nomeados o tempo inteiro. Para explicar uma decepção, geralmente fazemos uma longa lista de características de quem nos decepcionou. E isso explica tudo… Na verdade não explica coisa alguma, mas, de certa forma nos dá suporte para aceitarmos e explicarmos ao mundo que pede respostas incessantemente.
Certa vez assisti a uma discussão boba, mas que me vem à cabeça até hoje, pois foram usadas três denominações numa mesma conversa e, naquela hora, enquanto a coisa esquentava, eu pensava: Adoraria saber que proporção dessas características torna uma pessoa mais interessante. O motivo, como eu disse, era tolo, e, em algum momento alguém disse: – Você é muito passional, estamos falando de negócios, você precisa ter auto controle! No que outro alguém respondeu, já em lágrimas: – E você é tão racional que não consegue enxergar o quanto eu sou emocional, o quanto me magoa e me faz sofrer!  E por aí foi, até que os ânimos se aquietaram e passional, racional e emocional se calaram e, ao final, se entenderam e desculparam.
Quem de nós afinal, carrega somente uma dessas características? Quais delas estão escondidas, guardadas, esperando o momento (in)certo para vir à tona?
De fato, somos uma mistura esquisita, inconstante e instigante disso tudo.
Há épocas da vida em que simplesmente estamos mais para um dos lados, por vontade, necessidade ou apenas por questões de sobrevivência. Logo em seguida podemos mudar, agregar outro, apresentar o terceiro, ou tantos mais. O que realmente importa é o nosso esforço para mantermos a proporção que nos parece mais interessante, que nos deixa mais despertos para a vida, mais confortáveis para lidar com os traços passionais, racionais e emocionais alheios. E eu arriscaria dizer que essa mistura, dos nossos com os alheios, é que torna tudo mais encantador! Só precisamos aprender a dar tempo e espaço para as diferenças.

quarta-feira, novembro 4

A tirania do hábito e a liberdade para as borboletas

É difícil viver à revelia, sem algumas regras, horários, repetições? Sim, extremamente difícil. A gente se perde fácil, se desorganiza, se atropela, esquece prioridades e viaja nas “desnecessariedades”. Isso porque não há um norte, nada para guiar nem contestar nem nos frear.
Todo mundo precisa de um mínimo de orientação para o dia, para a casa, o trabalho, para a vida. E esse mínimo é particular, cada qual sabe do seu.
Pouco adianta levantar as bandeiras da liberdade integral e querer a todo custo se libertar de horários e convenções, porque definitivamente não funciona. E não funciona de cara, naquele momento em que você sai de casa e vai comprar o pão, mas a padaria está fechada porque o padeiro resolveu ter o mesmo direito que o seu, à liberdade de só fazer o que bem entender. Há regras a seguir, melhor que joguemos a favor delas.
Tenho uma amiga que vez por outra tira um dia e o chama de: liberdade para as borboletas. E ela nem telefone atende. É encantadora a maneira como ela cultiva esse dia, curtindo tudo o que quer fazer, passeando, comendo em lugares diferentes, conversando com as pessoas… ela realmente consegue a mágica de se desligar do hábito e entrar no mundo das borboletas. O problema é sair dele, mas isso já é outro assunto.
Já eu, sou escrava do hábito, assumida, chateada por nem poder contestar o título que carrego. Sou totalmente ligada em horários, não atraso nunca, faço o dia render ao máximo e descompenso quando algo me tira da rotina. Bom para mim? Não, bom para o meu trabalho, bom para quem me aguarda pois não os faço esperar, bom para a organização da casa em que vivo, bom para meus gatos que estão sempre bem atendidos, mas… é muito hábito para pouca vida, é muita produção para pouca diversão, muito resultado para pouca paixão.

O hábito é um tirano. Ele pega uma pessoa e a transforma em máquina. Maquina de fazer repetições. O hábito é um bruxo. Ele transforma as tarefas em desafios, o tempo em inimigo, as pausas em culpa, os anseios em frescura.

O hábito coloca a gente dentro da roda de um hamster e continua a dizer: – Faça tudo da mesma maneira, ou a roda parará e você não saberá mais como agir.
Por tempos eu acreditei nisso, mas agora, mais velha, vejo-me apegar um pouquinho mais pela teoria das “borboletas” de minha amiga. Neste momento, estou tentando fazer um acordo com o tirano. Cumpro o necessário e ele me libera para curtir o inesperado!

segunda-feira, novembro 2

Solte as cordas que os manipuladores amarraram em você

Vivemos presos a tantas coisas e pessoas, que nem nos damos conta do quanto estamos tolhidos e amarrados, andando aos passinhos curtos e lentos, presos às cordinhas, muitas vezes frágeis, mas muito bem amarradas.
Em família sempre há um expoente, que muito embora se pareça com um líder, pode também ser um manipulador ditando comportamentos, costumes, rotinas e até emoções. Para se livrar dessa corda não é preciso romper, apenas afrouxar, manter um espaço aceitável para todos.
No trabalho, é muito comum a ação dos manipuladores. Muitas vezes com jeitinho, agrados e elogios, e lá estamos nós, obedecendo cegamente, fazendo o que sequer avaliamos se queremos ou se devemos, porque mais uma vez nos deixamos amarrar.
Nos relacionamentos… as chantagens, a tirania, a manipulação da autoestima, do ego, a imposição, o medo, a falta de respeito…
As notícias, os vícios, as manias, a moda, a tecnologia, a necessidade de inserção, de aceitação, de pertencimento, tudo pode nos levar a estender os braços e dizer: amarre-me, manipule-me, me coloque em uma forma e só me tire quando eu estiver completamente moldado. Se assim escolhermos, assim será.
Por tudo isso, quando tomamos consciência das incontáveis cordas que nos enredam, da teia em que nos permitimos colocar e dos movimentos obtusos que fazemos por não sabermos mais como nos colocar em equilíbrio por nossos próprios pés, desejamos romper, rasgar, cortar as cordas com os próprios dentes se preciso for. O perigo de fazermos isso num ímpeto é descobrirmos que não sabemos mais ficar de pé sem as amarras.
Clarisse Lispector em uma carta à sua secretaria, Olga, escreveu: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro.”
Assim, também nós, tenhamos cuidado ao cortar as cordas que nos prendem e sufocam a liberdade de pensar, agir, decidir, escolher, viver.
Sejamos delicados, como nos jogos de equilibrio. Uma decisão após a outra, uma conquista, nova avaliação, mais uma tentativa, e vamos, pouco a pouco, soltando amarras de uma vida inteira, deixando de crer no manipulador de qualquer natureza, tirando-lhe todas as permissões, permitindo-se enfim, governar a própria vida.