terça-feira, outubro 20

A arte de conviver com sabichões

Sabichão é aquele sujeito ou sujeita que não tem a menor sombra de dúvida sobre nada ou ninguém. O sabichão sabe – e na maioria das vezes não sabe – tudo a respeito das notícias atuais, sabe historia como ninguém, sabe sobre leis, direitos, deveres, regras sociais, moda, estilo, cinema, artes, composição do chiclete, quantas pernas tem um piolho e muito mais.
O sabichão domina a conversa, interrompe as pessoas, ignora os bocejos entediados e continua o discurso com a mesma empolgação.
Até esse ponto, poderia ser só um chato. Mas tem chatos mais bacanas, que de vez em quando param para respirar e depois dizem: Isso eu não sei. O sabichão nunca vai pronunciar isso.
Quem convive com um ou mais sabichões sabe do que estou falando.  É uma verdadeira arte conviver com personalidades tão vaidosas, arrogantes,  irascíveis. Não há diálogo, não há troca, não há prazer.
E quando uma pessoa dessas é contrariada, quando alguém ousar discordar, o mundo vem abaixo, sob diversas formas: uma saraivada de argumentos, teorias exaltadas, defesas apaixonadas, socos na mesa, qualquer coisa vale para quem não sabe ficar sem os créditos de uma razão.
Mas como se faz para conseguir conviver com tamanha sabedoria? Submissão? Indiferença? Provocação?
E quando ainda assim temos afeto, gostamos tanto dessa pessoa insuportável  que somos capazes de encarar todas os capítulos da história do mundo que ela sabe de trás para frente?
O truque de dar bastante comida para que ocupe a boca não funciona bem, o sabichão não tem dó de deixar a comida esfriar em troca de longos e detalhadas explicações.
Tampouco levantar um assunto que teoricamente ele não domina, pois o efeito desse desafio pode ser uma enxurrada de teorias e hipóteses.
Solução definitiva não sei se há, mas se um sabichão entrou na sua vida, ou você na vida dele, de qualquer forma que for, a melhor experiência que posso compartilhar é de propor tréguas de sabedoria – O dia em que nenhum de nós nada sabe – é um exercício no mínimo engraçado, mas cuidado, você corre o risco de descobrir que o verdadeiro sabichão pode ser você.
Afinal,  poucos são os que não reclamam a verdade e sabedoria para si próprios.
Por um mundo com mais curiosidade e menos certezas!

domingo, outubro 18

Deixar o coração ser a fogueira que mantém a vida acesa!

No coração da gente nunca deveria caber nada gelado, possível de estragar,  suscetível ao frio. Coração é fogueira que transforma as coisas cruas em delícias, quebra os gelos e derrete camadas, esteriliza, desinfeta!
Se você está usando o seu coração como geladeira, é provável que nem consiga ver o que tem dentro, no meio dos potes e vidros, tudo guardado, etiquetado, refrigerado, e com data para acabar ou ir para o lixo.
A versão piorada seria um freezer, temperaturas realmente baixas, tudo estocado, no meio da névoa, sem vida, sem chance de reanimar.
Assim podem ser as nossas relações. Estocadas e seguras, mas geladas e insossas.
E, apesar de acreditarmos que dessa forma não corremos o risco de ferimentos, sim, o gelo também pode queimar, machucar, rasgar a pele e nossa alma.
Nosso coração tem natureza quente, se envolve, envolve outros, tem ritmo, fluxo, disparos, acelerações. Nossas emoções mais intensas são verdadeiras tochas que tanto devastam como aquecem.  Essa medida é o desafio muitas vezes de uma vida, mas aí mora a nossa busca. Equilíbrio, discernimento, harmonia… um pouco de cada já garante um morninho gostoso, já balanceia as chamas e impede que o vento as apague.
Assim como esfregamos as mãos para as aquecer, também nosso coração precisa muitas vezes de uma ajudinha. Os dissabores, os traumas, as decepções e frustrações são como aquele vento gelado que a gente demora a perceber, mas vem constante e implacável na sua rota, esfriando e condensando nossas emoções, nossa capacidade de reagir, insuflando o cansaço e a exaustão. For fim, se nada fizermos a respeito, se não gritarmos por socorro, implorarmos um calor extra, um abraço, uma palavra amiga, um ato de amor, estaremos em pouco tempo, vencidos e frios, duros e insensíveis, como cubos de gelo.
É hora, portanto, de ir à floresta, catar os gravetos e folhas secas, as dores e desamores, juntar tudo e atear fogo, deixar queimar, desinfetar, ficar perto do calor, se aquecer… Deixar o coração ser a fogueira que mantém a vida acesa!

quinta-feira, outubro 15

Mais uma desculpa para dizer não!

Chega um feriadinho e a gente logo pensa em como aproveitar da melhor maneira possível :Um passeio, uma reunião com os amigos, quem sabe uma visita aos parentes, pintura da casa, colocar a casa e a vida no lugar.
Mas então a gente começa a se preparar para seja-lá-o-que-for que estamos planejando e… sem pedir qualquer licença se instalam as nuvens negras da tempestade imaginária que vai cair a qualquer momento nas nossas vidas, só porque resolvemos planejar algo mais divertido do que trabalhar e cumprir a rotina fielmente.
Não que trabalhar e viver a rotina sejam coisas negativas, pelo contrário, são essas repetições que regem nosso calendário e fazem os momentos de pausa serem tão valorizados. Mas, penso que não nos demos conta de alguns paradigmas que andamos criando nos últimos tempos.  No dia a dia não temos muitas opções, pois devemos trabalhar e cumprir os afazeres em qualquer situação, com chuva e sol, calor e frio, trânsitos, greves, mal humor,  dores e dores (para todas as variações).
Mas, e que fique bem claro que não estamos falando de nenhuma patologia e sim dos truques que usamos para nos vitimizar, no momento em que consideramos a possibilidade de ousar nos divertir e relaxar, aí o mundo desaba e os pânicos preenchem todos os espaços que deveriam pertencer ao prazer.
  • Vamos ao parque, passar o dia de papo para o ar! – Não podemos, vai chover, vai ventar, o mundo vai se acabar.
  • Vamos combinar um encontro, amigos de escola, há tanto tempo não nos vemos! – Eu não posso, preciso levar meu cão para tosar; – Eu confirmo depois, talvez também não possa; – Pode ser outro dia? (gostaria de estar mais confiante, mais elegante, mais fascinante…)
  • Vamos visitar aqueles parentes que sempre nos convidam! – Não, vamos pegar muito trânsito! – Talvez eles nem estejam em casa!
  • Vamos mudar nosso ambiente, pintar as paredes, os móveis, mudar tudo de lugar! – Não, sinto receio de não me sentir mais em casa!
  • Vamos viajar, ver como é a vida em outro lugar! – Não, não sei se vou gostar da comida; – Não sei se conseguirei dormir; – Não sei se serei capaz de ver gente vivendo de forma mais descomplicada e simples.
E são tantos “vamos” e “nãos” que acabamos concluindo que vivemos com uma cartela de pânicos que nos impedem de dar um passo a mais em favor do nosso conforto.
Sim, porque enfrentamos tudo para ir ao trabalho, mas queremos que o prazer bata à nossa porta,  para nos livrar dos perigos.
É hora, pois, de pensarmos que,  se não enfrentarmos todos esses receios, eles certamente nos engolirão sem piedade, e nossa vida será um emocionante “conto de nadas”!

quarta-feira, outubro 14

Sabe aquele dia em que você amanhece diferente, como se fosse outra pessoa?

Pensamentos estranhos, atitudes incomuns… mas ainda assim é você.
Pode ter sido um sonho bom, um pesadelo terrível, o jantar que não caiu bem, ou simplesmente, você amanheceu diferente. Não outra pessoa, mas uma versão sua até então desconhecida.
Hoje eu amanheci assim. Acordei no horário certo, sabia o que tinha para fazer, estava tudo organizado mas… resolvi fazer diferente, ou melhor, não fiz nada.
-Gente, essa não sou eu. O que está acontecendo?
Incrível como a gente se espanta com a espontaneidade. Perdemos o costume quando somos espontâneos. Assustamos e nos assustamos.
Mas, voltando aos dias diferentes, quem nunca acordou com uma vontade irresistível de arrumar uma mala e sair no mundo? Quem nunca se vestiu diferente do jeito habitual, trocou o café da manhã por um pastel com caldo de cana, chegou tarde no trabalho porque sentou no banco do parque e fez nada por meia hora? Quem nunca acordou diferente, fez tudo diferente, pensou diferente e enxergou a vida de modo diferente? Isso é pura mágica!
Como se ao abrir os olhos, enxergasse de primeira uma placa dizendo: Lamentamos, mas hoje você não pode ser a mesma pessoa de sempre!
E  gente se assusta, mas deveria aproveitar. Certamente é uma chance e tanto de se reinventar, se variar, se experimentar fora do quadrado habitual.
Tão bom sentir que brotam ideias e ações diferentes das que estamos acostumados a selecionar dos arquivos rotineiros! Tão  gostosa a sensação de novas sensações, gostos,  preferências… Talvez sejamos assim todos os dias, talvez uma vez ou outra, mas tem dias em que isso é tão gritante que por pouco não vira lenda: O dia em que eu acordei diferente.
De repente é alguma variação energética, não entendo muito disso, mas também não ouso duvidar. E ninguém pode negar que existem aqueles dias em que a gente se sente na onda verde, tudo fluindo, sem contrariedades, portas se abrindo, os mais difíceis até sorrindo! Ai de nós se não soubermos aproveitar!
Como tenho mania de comparar, diria que os dias diferentes são aquelas estradas impecáveis, de paisagem perfeita e nenhum trânsito para empatar.
Diferente dos dias comuns, onde nos atropelamos e ficamos por muito tempo estacionados e engarrafados na própria rotina.
Se amanhã você amanhecer diferente, não ouse não desfrutar!

sexta-feira, outubro 9

Carpe Diem, porque o tempo voa!

Há momentos em que a gente se dá conta da passagem de tempo, e o susto é inevitável. Um dia vivíamos o dilema de escolher a profissão, no outro, nos pegamos pensando na aposentadoria. E num piscar de olhos estaremos nela.
Nessas horas eu me pergunto sobre as prioridades, sobre as necessidades, sobre as vontades que temos, todos nós, em relação à vida. Pensar que os anos passam disciplinadamente rápido e levam consigo parte das nossas vidas, provoca uma reflexão sobre coisas que só mesmo o tempo tem poder para enfrentar. Como queremos que o tempo passe por nós? Sabemos organizar a vida para que tudo aconteça a seu tempo? Ou deixamos o tempo levar o que queremos?
Queremos informação, conhecimento, desenvolvimento de habilidades. Estudamos, nos especializamos, viramos mestres, doutores, sumidades em determinados assuntos. A negociação com o tempo envolve grande esforço, mas muito prazer e reconhecimento também.
Queremos segurança, dinheiro no banco, uma casa, um carro, estabilidade,  poupança para viagens… Alguns de nós conseguem tudo. Muitos de nós conseguem parte. Parte de nós não consegue, ou abre mão de conseguir. Isso vai depender de muitas coisas, mas também de quanto tempo será investido. Tempo este que não dá garantias. Hoje estamos, mas amanhã, quem sabe? E quanto mais queremos, mais tempo teremos que negociar.
Queremos nos divertir, viver a vida, contabilizar aventuras, ver o mundo, abraçar os amigos, brincar com os filhos, brindar, cantar,  amar, não deixar a festa acabar. E nessas horas, digam o que quiserem, mas o tempo dá sempre um jeito de passar mais rápido. Guardamos pedacinhos desse tempo em milhares de fotografias, filmes, recordações, mas mesmo assim ele não volta.
No final, não importa o que queremos nem quanto tempo isso leva de nossas vidas. O que vale é entender como nos acertamos com esse tempo, como negociamos para que ele seja  aliado dos nossos desejos ,necessidades e aspirações, de forma que, ao final do nosso tempo, possamos constatar que vivemos em harmonia com o tempo, a vida que escolhemos ter.
Que não tenhamos motivos para lamentações sobre tempos perdidos ou desperdiçados. Isso sim é uma forma cruel de matar o tempo.
“Cada minuto que passa é um milagre que não se repete”
(Chamada da extinta rádio relógio, há muito tempo atrás, que também já ficou no passado).
Carpe Diem, portanto, todos os dias!