terça-feira, outubro 6

O silêncio é o grito mais forte

Curioso como sempre tentamos nos afirmar com argumentos e explicações, que vão desde as discussões civilizadas e ponderadas, até berros, soluços chiados e muxoxos… E quando a última palavra não é a nossa, que agonia!
– Ah, eu não disse tudo o que queria! Tinha muito mais, e como tinha!
– Desculpe minha sinceridade, mas eu sou assim mesmo…Não é grosseria, é meu jeito!
Sim, todo mundo quer deixar sua marca, ver o outro com a cara no chão, sem argumentos, virar com classe e ir embora deixando o silêncio da última palavra dita, discussão fechada, batalha vencida, final de uma história, laços rompidos… Nessa hora, parece desvantagem não ter voz, não bater o martelo do leilão, não dar um murro na mesa e um grito de “agora você vai me ouvir”.
Mas será que realmente é prejuízo segurar uma ofensa, um demérito, uma confidência, lamentação, xingamento, súplica, uma palavra mal dita, mal encaixada, mal pronunciada?
Dizem que o que a gente guarda para si, um dia pode virar uma doença, como um veneno circulando e fazendo seus estragos. Eu me pergunto se o que a gente fala e não guarda, não é justamente a mesma coisa, sendo que vamos propositalmente atingindo os outros, muitas vezes fazendo para machucar, para ferir, adoecer…
Quisera soubéssemos agir no meio termo de tudo. Calar, digerir, selecionar, descartar e seguir. Quisera não tivéssemos essa vocação para advogar em causa própria ao menor descontentamento.
Argumentar muitas vezes resolve, outras, nem com reza forte.
Poderíamos pensar em alguma regras, para poupar esforços e frustrações:
– Você foi alvo de fofoca? Provocações? Injustiças? Deslealdade? Indiferença? Agressões?
– O quanto vale à pena rever essas situações e se concentrar em debatê-las?
– Quanto tempo e energia você vai concentrar nas respostas? Com qual intenção? Vai melhorar as coisas ou rolar a bola de neve para que aumente um pouco mais? Vai conseguir transformar algo a seu favor?
Quem fala mais alto aqui, afinal?
O silêncio. O silêncio é o grito mais forte!

domingo, outubro 4

Não esconda a vida atrás de uma cortina!

Eu amo analogias e muito frequentemente me pego fazendo as mais estranhas comparações. Hoje, observando as cortinas da minha sala, constatei mais uma vez que comprei cortinas mais estreitas do que as janelas, onde um lado sempre fica descoberto. No começo achei ruim. Mas, como seria um transtorno fazer a troca, me conformei. Agora, pensando bem, vejo que comprei exatamente o tipo de cortina que me deixa confortável. Eu jamais cerraria tudo, de canto a canto, portanto, trabalho poupado. Para a minha vida, é preciso sempre deixar uma fresta à mostra;  a certeza de ver o outro lado e que o outro lado me veja também.. E, vale o detalhe: a cortina é quase totalmente transparente, portanto, pouquíssima diferença faz se toda aberta ou encolhida.
Por que afinal escolhi uma cortina assim? Será medo? Será desconfiança? Serei eu uma controladora? Uma exibicionista? Pode ser que nada disso. Pode ser que tudo isso.
E nós, como administramos as cortinas das janelas do nosso mundo? Permitimos muita luz? Bloqueamos tudo? Abrimos mão da função principal e as usamos somente uma bela decoração?
Cortinas finas e delicadas, que deixam o  ambiente leve e confortável e convidam a apreciar a luz que refletem, são os dias em que nos sentimos em paz com a vida, abertos para novas experiências, aconchegados e sossegados.
As persianas, que não raro se enrolam, prendem as cordinhas nas estruturas, e ao final ficam com um lado totalmente para cima e outro para baixo, podem representar aquela fase em que perdemos o foco,  nos engalfinhamos com problemas, tropeçamos nas próprias pernas.
Quando nos percebemos mais introspectivos, lembramos as  cortinas com forros, que rapidamente são puxados a qualquer sinal de que há luz demais onde não deveria.
Nos momentos mais complicados, tristes, depressivos, blackouts de parede a parede, com a  função de manter a sombra, a escuridão.
Se livres, cortinas de voal ao vento, escorregando pelos peitoris das janelas… se presos, pesados painéis estáticos.
De todas as formas, em algum momento da vida já passamos por todas as essas cortinas, muitas vezes nos enrolamos nelas, nos escondemos atrás delas, brincamos de abrir e fechar, e até as puxamos, para arrancá-las dos seus varões.
Todas as formas estão valendo, desde que sejam sempre cortinas, e nunca escudos, nunca lacres… Que as cortinas passem por nossa vida, mas, que a nossa vida não passe somente através das cortinas.  Melhor não tê-las então.

sábado, outubro 3

Não se preocupe comigo, eu me curo

Não se preocupe comigo e, sim, com você, que repete os mesmos comportamentos de menino, dando e pedindo as mesmas desculpas, chegando e saindo sem qualquer responsabilidade, levando muitas vezes o que não te pertence e sem permissão.
Querido, eu me curo. Da mesma forma que eu não sou para você, você também não é novidade para mim. Você não é o meu primeiro príncipe, meu primeiro engano, meu primeiro erro. Portanto, querido, nem toda essa importância você pode reclamar para si.
Querido, o que foi bom, foi ótimo. Fiquemos unicamente com isso. Não lamente por mim, não troque a sua culpa pela dó, não faça essa barganha desonesta. Saia desse contexto o mais limpo possível, sustentando suas certezas, assumindo suas escolhas e, principalmente, leve com você a sua parcela de responsabilidade. Não a deixe de herança para mim, pois, já tenho a minha própria e a usarei como argumento para seguir em frente.
E, querido, não seja tolo, não me olhe como se eu fosse frágil, delicada e vulnerável. Sou mais forte do que pensa e, te aconselho a não ficar com a imagem de biquinhos e suspiros como lembrança, pois, definitivamente, não é meu retrato fiel. Entenda que as ferramentas de um diálogo não são a parte em si. Somos muito mais, tanto eu quanto você. Se quiser, leve com você a inquietação de não ter visto o melhor nem o pior de mim. Eu abrirei mão dessa parte, aceitando que já vi o que era preciso e, daqui para frente, nenhuma explicação será mais útil ou necessária.
Por fim, querido, peço que não me pendure como coitadinha na sua galeria de lembranças, já que, por mim mesma, também não te citarei com despeito.
E, não me peça mais desculpas por ter escolhido outra vida. Desculpe-se somente por sua falta de coragem para me contar, dividir suas dúvidas, olhos no olhos.
Quanto a mim, não tenha dúvidas, eu me curo!

sexta-feira, outubro 2

Temos preguiça, sentimos fadiga, criamos temores, vivemos com medo de as coisas darem certo

Sabotagem. Eis uma palavra que não é tão comum, mas também está longe de ser uma desconhecida em qualquer história de vida.
Você é sabotado, quando te omitem uma verdade, quando é lesado, enganado, injuriado, prejudicado…
Você poder ser sabotado infinitas vezes ao longo da vida. Pode descobrir, pode sequer desconfiar, pode nem querer saber e ir levando…
Você pode achar normal, que é do jogo, pode se sentir ultrajado, magoado, revoltado, enganado…
Mas, e quando a sabotagem parte da parte que deveria se defender das possíveis sabotagens, intencionais ou não?
Fazemos isso? Fazemos esse total desserviço a nós mesmos, sabotando-nos e nos subtraindo oportunidades que poderiam ser positivas para nossas próprias vidas?
Sabotamo-nos quando temos preguiça. Preguiça de tentar algo, pesquisar, preguiça de entender, considerar, analisar. Deixamos de entrar em contato com um monte de novos caminhos, possibilidades, pessoas e lugares, por conta da tal preguiça.
Sabotamo-nos quando sentimos fadiga. Com a velha desculpa de que estamos cansados de tentar isso ou aquilo, que estamos exaustos de bater com a cabeça na parede, a cara das portas, a mão na ponta da faca… sentimo-nos feridos e abatidos pela fadiga. E, para evitar mais dores e mais suores, sabotamo-nos, crendo que estamos fazendo o certo.
Sabotamo-nos quando criamos temores. Da mesma forma que criamos desenhos, textos, looks e fantasias, criamos temores. Temores robustos, bem alimentados, verdadeiros paredões que nos impedem de ultrapassar as dificuldades e enxergar possíveis soluções. E nos sabotamos, em total paralisia.
De fato, queremos demais que a vida seja leve, que o café esteja quente, que a chuva só caia, quando estivermos abrigados e agasalhados, que a saúde esteja em dia e que o mal passe bem longe.
Mas, para afastar o que não queremos por perto, para manter o que já conquistamos e para dar passos mais adiante e vislumbrar outros horizontes, precisamos urgentemente derrotar, esmagar, dizimar esse medo que nos cai tão bem quanto um par de botas de chumbo. Precisamos, finalmente, deixar as coisas darem certo!

quinta-feira, outubro 1

Acumule vida, não coisas.

Temos um conceito de necessidade bem versátil, no que diz respeito a gostos e recompensas. A palavra “necessidade” vem com tudo, quando estamos defendendo o que desejamos, sonhamos e acreditamos piamente que precisamos e sem o qual não vivemos. Necessitamos, precisamos a qualquer custo e não sossegamos, enquanto não conseguimos. E começamos a acumular necessidades…
Acumulamos tudo. Papel demais, vaidade demais, lixo demais, comida demais, promessas demais, móveis demais, manias demais, peso demais para uma vida que não depende, nem se garante por nada disso.
Se vamos ao supermercado, enlouquecemos. Compramos muito mais do que precisamos, saímos de lá exaustos, lisos, e com carrinhos abarrotados de coisas que não precisamos, que não suprem a fome que realmente temos. Mas, naquele exato momento, juramos que não haverá possibilidade de vida, se não levarmos quatro potes de cera líquida para tacos. Assim somos. Insaciáveis.
Se passamos na farmácia, viramos imediatamente doentes, de tanta medicação que precisamos ter com urgência em casa, para o caso de uma febre, uma torção, um ataque cardíaco, laringite, sinusite, tendinite…
Em viagem, perdemos totalmente a noção de estadia provisória, levando uma bagagem gigante, pesada, desnecessária, desconfortável e ridícula.
Olhando assim de passagem, eu diria que, compatível com as angústias que desejamos deixar para trás, muitas vezes.
Nós guardamos livros que não iremos ler mais, material escolar que jamais voltaremos a consultar, rolhas de garrafas, vidros vazios, revistas, sacolas, roupas, enfeites, comidas, remorsos, mágoas, invejas, lamúrias, ressentimentos e toda espécie de peso em nossos ombros.
Por fim, ficamos totalmente soterrados e engolidos, desfigurados, irreconhecíveis, distantes demais do que já ousamos sonhar em ser. Não há espaço mais para acomodar a liberdade, não há braços para carregar os sonhos, não há fôlego para acompanhar a vida que passa.
Joguemos fora, portanto, o que nos limita os movimentos. Tenhamos coragem de nos desfazer de coisas e causas que nos paralisam. Necessidade é viver em paz! Necessidade é colecionar lembranças, acumular memórias, estocar conquistas, cercar-se de afetos.
Saiamos das trincheiras, de peito aberto para vida, sem escudos nem proteções. A vida passa rápido demais para sermos unicamente vigias dos nossos pertences. Pertençamos nós à vida, da forma mais livre possível.