quinta-feira, setembro 10

Declare-se inocente! Não assuma culpas alheias.

Quem nunca resmungou ou ao menos pensou em se culpar por mal feitos alheios, por medo, preguiça, ou por conveniência?
– Eu não deveria ter falado isso ou aquilo. Criei tensão e deu no que deu;
– Eu deveria ter esperado um pouco mais, mesmo depois de tanto tempo;
– Eu poderia tentar esquecer aquele gesto impensado. Talvez não tenha sido proposital… nem doeu tanto assim;
– Eu gostaria de mais atenção, mas talvez eu não seja uma boa companhia…
E sim, afinal consegui me sentir culpada por tudo. Uma palavra torta, um baita de um bolo, um esquecimento, uma passada de perna, uma violência… e as coisas só se complicam, mas certamente eu poderia ter evitado, ou aliviado, ou relevado, ou tudo isso e ainda pedindo desculpas. Em mim cabe toda a culpa do mundo e eu me declaro culpada talvez para não ter que enxergar a maldade alheia, para não admitir as minhas escolhas equivocadas, para tentar desajeitadamente consertar o que?
Isso não é bondade, não é altruísmo, não é civilidade. Está bem perto de ser outra forma de manipulação. O culpado declarado desarma o verdadeiro culpado, gera piedade, mostra uma sinceridade inocente, uma delicada fragilidade. Sempre a postos para pegar para si as culpas e as responsabilidades. E sempre livrando outras caras.
– Sim, eu poderia ter feito algo para evitar isso, mas não fiz. Além de culpada, sou omissa. É tudo culpa minha.
Mas sabe o que? Dei para discordar desse modelo de vida, onde, em qualquer nível, um assume a arrumação para o outro cantarolar. Ando mesmo decidida a me declarar inocente!
Inocente por permitir a arrogância alheia no meu território;
Inocente por crer que algumas coisas podem ser resolvidas amigavelmente; Inocente por deixar o tempo passar demais;
Inocente por me sentir culpada pelo que não fiz.
Eu me declaro inocente, agora com muita malícia, a mesma que recusei antes, para não voltar atrás. Não carrego mais culpas, nem desculpas.
E tudo isso, em legítima, incontestável e incondicional defesa. Quem irá me culpar?

domingo, setembro 6

Troquei a capa pesada por um vestido soltinho

Cansei de tentar ter um argumento para tudo. Cansei de explicar e me explicar coisas que não se explicam, que não tenho capacidade de entender, coisas que muitas vezes me geraram muito trabalho e pouco ou nenhum proveito. Cansei de arrumar explicação para os tropeços alheios, desculpas para não sentir raiva, argumentos psicológicos para proteger imagens e mitos.
Me dei conta que esse universo de argumentos prontinhos é uma capa pesadona, cheia de bolsos, internos, externos, secretos… Com ela, realmente me sentia agasalhada e protegida, mas andava lenta, sem mobilidade, vasculhando como louca todos os bolsos, tentando achar as explicações perdidas no meio dos infinitos bolsos. E chegou um tempo que não sabia mais como tirar a capa, pois os zíperes emperraram, e, com má vontade tentei uma, duas vezes, e então desisti. – Sou assim mesmo – decretei.
Claro que agora não é questão invalidar os argumentos. Afinal, me custaram muito tempo e miolos para realizar algumas conclusões e alguns deles eu vaidosamente considero brilhantes. E é óbvio que são essenciais para dar sentido às discussões. Mas, reconheço que, se por um lado muitos deles são totalmente válidos, uma parcela gigantesca pode muito bem ser dispensada do acervo, liberando peso e espaço. Os mais antigos, os que não se aplicam mais, os que levam às desculpas tolas, os que não me dizem respeito mas que eu achei um jeito de me inserir…
Decidi não ousar mais tentar ter ou ser resposta para tudo e todos. Não quero ser lembrada ou reconhecida como conselheira, razoável, mediadora, nada disso. Quero ter o direito de uso do ponto de interrogação; Quero me proporcionar a liberdade de dizer: – Não sei – quantas vezes tiver vontade; Quero não me ocupar de entender o que não faço questão de entender.
Decidi portanto, arrancar e rasgar a capa pesada e com manchas do tempo e trocar por um vestidinho de alça, solto, leve e cheirando a novo. Acho até que posso vir a sentir frio, mas para poder me proteger, vou tentar um xalezinho, um esfregar de mãos, um abraço. Ou tudo isso junto ao mesmo tempo. Afinal, frio mesmo a gente só sente quando está só, isolado por certezas. Na dúvida, tem sempre alguém por perto, sentindo o mesmo.

quinta-feira, setembro 3

Desapegue, abra caminho, mostre a saída, despeça-se bem e deixe ir

A gente se apega. Se apega e muito, tanto que não sabe soltar a mão do filho quando ele quer (e precisa) andar sozinho, não sabe soltar o sorriso quando o mau humor já até foi, não quer soltar a raiva quando ela já nem está mais lá, não larga o missa inteira de ladainhas e reclamações, mesmo quando ninguém está mais disponível para ouvir, não deixa ir o rancor, mesmo quando mais nenhum sentido ele faz…
O tempo de segurar junto do peito é real, tudo o que a gente passa na vida é para realmente ser vivido, doendo ou não, é o que molda a gente, o que faz a forma única e inconfundível de cada um. Mas tudo, absolutamente tudo, até a própria vida só dura um tempo, depois passa. Quando começa a esfriar, a acalmar, dissipar, atenuar, é preciso saber o momento de soltar, deixar ir. Deixar ir a tristeza, a raiva, as desilusões, mas também as risadas, os afetos, as promessas. Deixar ir é um ato inteligente, honesto, justo. Às vezes tudo volta. Outras, não volta nunca.  E assim é, às vezes nós voltamos, outras, jamais.
Como um elástico, a gente estica até onde ele vai, mas depois esgarça, perde a forma, ou pior, volta a nós com tal violência que deixa marcas doloridas. Saber o momento de largar é proteção e alívio. É garantia de mãos livres para alcançar e tocar no que tiver vontade.
Seja o que for, se já está passando, desapegue, abra caminho, mostre a saída, despeça-se bem e deixe ir.  Ao invés de conviver às turras com o que ansiava por ir embora,  decrete o fim da estadia. Sacuda as colchas, bata os tapetes, coloque os travesseiros no sol,  desfaça as tensões,  ajeite a postura, aproveite a porta aberta e siga sua vida. E mantenha por perto somente o que não estiver de passagem.

quarta-feira, setembro 2

Ela dança como se não houvesse ontem

Ela lembrava de todas compras que precisava fazer naquele dia. Também lembrava das notas que eu precisava tirar para passar de ano. Ela lembrava de uma malcriação feia que eu fiz e a magoou muito, em uma noite de Natal. E lembrava que a conta do telefone iria vencer no dia 16. E por toda a vida foi assim, a mulher que foi a minha referência,  que trabalhava fora, que cuidava da casa, era vaidosa e bem cuidada, bastante religiosa e faladeira como toda geminiana é. Herdei o signo dela, mas nem tanto a memória. Preciso ter tudo anotado e rabiscado depois de cumprido.
Hoje, ela ainda lembra de mim, mas me recebe com um sorrisão e fala alto: Minha mamãe chegou! Não lembra mais a mulher que foi, não lembra quem é direito, não lembra de quase nada. Hoje só gosta de dançar. E dança muito. E quase não dançava quando era mais nova, quando lembrava de tudo. Era sisuda, brava,  não tinha conversa mole com ela.
Um dia, ela esqueceu uma coisa. No outro, falou uma bobagem que fez todos rirem. E a mulher sisuda aos poucos foi se desfazendo, e dessa mulher agora quase nada resta. Em seu lugar, mora uma criança de 86 anos, que dá risada quando se dá conta que está de fraldas, que abraça e beija qualquer pessoa que queira seu carinho, que esqueceu e fez todos esquecerem de quem ela realmente já foi.
No começo foi muito difícil, quase impossível suportar. Inúmeras tentativas de trazê-la de volta. Mas de onde para onde? E ela olhava com os olhos perdidos, sem nada entender. E todos sofriam. Mas o tempo passa, a doença avança, e a gente finalmente entende que a guerra acabou. E não é uma guerra propriamente perdida. É acabada mesmo, porque um dos lados simplesmente deixou de lutar e aceitou, e aprendeu a conviver com as mudanças que o lado mais forte imputou. Nós, os parentes, a torcida,  é que demoramos mais do que deveríamos para perceber o tratado de paz que a vida impôs.
A mulher que me conhece melhor do que ninguém, hoje por vezes me desconhece, não mora mais conosco, precisa de cuidados, mas a cada visita eu conheço uma mulher nova, mais infantil, mais inocente. E em todas essas mulheres, eu me reconheço um pouco. Continue dançando, Mãe!

Mostre suas unhas para o predador

Cada qual reage de um jeito ao perigo iminente. Mais do que isso,  cada um sabe o leque de seus perigos pessoais, o que lhe aterroriza, lhe mortifica, paralisa, deixa os medos à mostra.
Minha experiência particular é de não reação total, um completo estado de imobilidade que, no mínimo, irrita até o próprio agente do perigo. Mas também me irrita, me mostra que aceito como justa a ameaça que me chega, que obedeço a uma palavra ou mão mais fortes do que as minhas.
Pais e filhos predadores…
Amizades predadoras…
Carreiras predadoras…
Amores predadores…
Palavras e promessas predadoras…
Sonhos, ilusões, momentos, olhares predadores…
…e a lista é interminável e muitas vezes inconfessável.
E sem nos aperceber, seguimos pela vida alimentando e engordando nossos predadores, aprendendo a não contrariar, a preferir a aceitação e a mudez, a anulação à reação.  Temos medo do que nos possa acontecer. Temos medo do abandono, da rejeição, do ridículo, da opinião e julgamento alheios, dos rompimentos.
Somos quase sempre assim, se não somos os predadores, somos as vítimas. E geralmente desempenhamos esse papel com um talento invejável, tanto que acreditamos ser um estado normal esse, de coração assustado, acelerado.
Mas, se um dia olhamos de frente para esse predador e resolvemos que não pode mais ser do jeito que é? Será que ele entende e se compadece? Temos tempo e vontade de aguardar pela mudança? Seria justo esperar que se pacifique o predador que nós mesmos alimentamos e fortalecemos?
E quantas vezes olhamos para dentro de nós mesmos e buscamos força? Mas será a força uma solução aceitável? Vamos travar duelos com nossos predadores? Se muitos deles nós amamos e queremos na nossa vida, o que fazer?
Talvez o caminho seja a conquista de um respeito que há muito se foi. O respeito que todos costumam bater no peito e anunciar que “é bom e eu gosto”. Sim e eu também gosto desse mesmo respeito e se preciso for, vamos mostrar como as  unhas estão afiadas para cada predador, para que pense duas vezes antes de vir para cima com todos os seus perigos.  Que considere vir para o lado, sem machucar, sem atropelar, pedindo a devida licença e aguardando a resposta.
E na dúvida, mostre sempre as suas unhas. Se for um predador, recuará. Se não for, dirá que estão bonitas. E ainda poderá vir a ser uma linda história!