terça-feira, agosto 11

Volte quatro casas!

E quando tudo estava se ajeitando, aconteceram coisas inexplicáveis que levaram embora as melhores esperanças…
Quando tudo se despedaçou, a vida apresentou novas oportunidades, novos rostos,  rotinas,  hábitos e alegrias…
Quem realmente nunca viveu momentos de euforia, viu seu mundo cair, fez um sucesso inesperado, virou a vida de cabeça para baixo, deixou o dinheiro acabar,  a TV quebrar, o carro enguiçar, a relação esfriar, tudo ao mesmo tempo , indo direto para ou céu, ou caído sem vida no chão?
Acontece sim com todo mundo, várias vezes na vida, e, a cada vez ficamos igualmente perplexos, tentando explicar a coisa toda com teorias tão loucas quanto possíveis, mas o fato é que sempre saímos mais fortes de todo o caos em que estávamos pouco antes. Num segundo distraído, deixamos de fazer parte daquele cenário e já estamos em outro, e aí aparece aquele lampejo da mudança. Alguns dirão: – Finalmente terminou meu inferno astral, ou, ao contrário, – Nessa época tudo de ruim me acontece. Outros não dirão nada, só ficarão gratos, revoltados, inconformados, se achando merecedores.  E tantos outros sentimentos serão válidos, de acordo com a disposição de cada um.  É do jogo, como aceitamos as posições em que estamos no momento.
É preciso aceitar que a vida realmente é tecida por milhões de conjunções possíveis. E, assim como ela, fazemos associações a todo instante, respiramos profunda ou rapidamente, sorrimos ou fechamos a cara. Olhamos para os lados, para trás, para baixo, ou piscamos os olhos e deixamos de ver um lindo sorriso lançado para nós naquele justo instante. Prestamos atenção no que achamos que nos interessa, mas também deixamos passar muitas, muitas outras atenções. É a combinação de escolher e ser escolhido.
O jogo da vida é dinâmico e incontrolável. As peças mudam assim como os humores, as chances, as células do nosso corpo,  o clima, os cabelos, a sorte… E quando passamos por tempos de tormenta significa que algumas combinações não deram certo. E seguimos pois precisamos acreditar nisso para que estejamos com boa disposição para as perfeitas que certamente virão e não durarão o tanto que gostaríamos, como todas as outras vezes.
Tratemos  portanto de soprar os dados e jogar honestamente, buscar e lembrar de tudo o que aprendemos com as derrotas e vitórias anteriores, ficarmos firmes nas péssimas jogadas e vibrar intensamente com as certeiras!
A velha máxima diz: “O que importa é competir”; Mas gosto ainda mais de pensar que existe uma que repete sempre para cada um de nós: Queira vencer, mas antes de tudo, queira estar no jogo, viva o jogo, entenda as mensagens em cada recuada, em cada passada. E volte quatro casas se assim for preciso!

sábado, agosto 8

Para voar, tem que pegar impulso!

Eu não sou uma pessoa de “partida rápida”. Fico esquentando os motores por uma demorada fatia de tempo, o mesmo tempo que passa rápido demais e, de tempos em tempos, me faz lamentar por isso.
Mas, como diria uma querida e íntima vizinha que me visita de tempos em tempos, implacavelmente: – Que diabos, você demora uma vida, e quando dá a partida, não sabe onde quer chegar! Melhor nem ensaiar o voo!
Então, D.Consciência, a vizinha, íntima, jura que me vê como uma garça de olhos vendados, correndo pra lá e pra cá, tentando voar sem pegar impulso, batendo de frente contra muros, tirando fino de carros, cães, postes e gente. Gente! Quanta gente que fala sobre objetivos e metas com uma certeza de fazer inveja- sim, eu sinto essa inveja! ; a gente fica imaginando aquela cadência perfeita, a pessoa realizando tudo no tempo programado, os postes e muros correndo para sair do caminho, as oportunidades fazendo aquele gesto com o dedinho – vem cá, eu tenho um atalho só para você!
Eu imagino isso, confesso, mas imagino porque tenho tempo. O mesmo tempo em que não estou fazendo o que sonhei fazer, o que projetei, plasmei, organizei, mas joguei dentro de alguma caixa de sapatos velha, que mora dentro do armário, na parte mais alta, por baixo da mala que também não sai há muito tempo de lá. E, não usar mala por um bom tempo é mau sinal. Sinal de que não estamos voando, e pior, que o chão pode estar-se abrindo e mostrando o que há embaixo. E esse embaixo revela o que não enfrentamos, o que varremos para longe, o que poda nossos anseios e encharca nossas asas…
Mas, voltando ao assunto, agora vou escrever. O tempo certamente vai jogar do meu lado, vai me ensinar como pegar impulso para voar e colocar nas linhas e entrelinhas tudo o que eu conseguir ver, sentir, guardar e lembrar, pois que a idade vem chegando e a vizinha, ela a Dona…Consciência (nunca tranquila), me fala que o que gente deixou guardado, depois funciona com uma certa dificuldade. Vou fazer um acordo com a vizinha: ela me libera do sermões e eu a deixo satisfeita, cumprindo pelo menos uma meta diária. Dessa forma ambas dormiremos bem. Esse é o grande plano e há de funcionar! Temos um acordo e não trapacearemos.
Agora, para começar a me (d)escrever, preciso de um lápis, um lápis para colocar o primeiro pontinho, o de partida, ponto inicial. Superstição ou não, é isso que eu vou fazer, assim que encontrar o lápis, que, ainda bem, não está naquela caixa de sapatos, caixa essa que irá para o lixo junto com os freios e arreios que guardei com apego por um tempo mais que longo, mais que uma vida suporta.
Aproveitando o momento, vou botar a mala no sol pra sair o cheiro de guardado. Já que o impulso é o caminho, que o voo seja surpreendente!

Sobre deixar ir embora o que precisa ir

Enquanto aguardo a lavadora terminar o ciclo básico – lavar roupas a noite nos deixa com uma sensação insuportável de vigília – penso nos ciclos que não terminam, que se multiplicam, transformam, perduram… Penso nas decisões tomadas que não duram nem o tempo de um café esfriar, nas promessas que não resistem nem às pré-lavagens das ideias,  nos “nunca mais” que deixam de existir por qualquer apelo, na eterna resistência em fechar os ciclos da vida.
Podemos nos comparar com as roupas colocadas em lavadoras? Será que elas, as roupas, se debatem tão sofridamente quanto nós para enfrentar as passagens de ciclos?
Enquanto estamos na fase do molho, a mais quentinha e confortável, os sentimentos ainda estão se acomodando e penetrando nas nossas vidas, ainda sem intenção definida, somente rodando e misturando-se ao todo. É quando nada nos faz mal e toda novidade parece bem intencionada e há de nos oferecer emoções novas e felizes, como assim achamos que será para todo o sempre. Passada a mágica, vem a lavagem, a dura tarefa de perceber as impurezas e falhas do que antes recebemos de tão bom grado. E esse é um ciclo que pode parecer interminável, muito embora seja tão rápido quanto aceitamos. As emoções resistem, encontramos argumentos e desculpas para reter as manchas, nos apegamos fortemente aos cheiros que nos levam aqueles instantes que queremos a todo custo reter e não deixar que escoem; nos agarramos a cada sujeirinha com se fosse a nossa única forma de nos reconhecer – como nas relações que fracassam e imploramos que haja uma explicação que seja, por mais absurda, que justifique toda a camada de ressentimento que ali se instalou, e, desapareça numa piscada de olhos, porque encontramos a resposta… ou criamos, ou inventamos..  E, a cada sacolejada, mais confusão e falta de rumo.
Sorte de quem tem amigos que são pérolas de amaciante aliviando o rebuliço da vida. Amigos geralmente tentam nos mostrar o que está mais do que evidente, mas são tão generosos que entendem quando ainda não estamos preparados para mexer naquela mancha gigantesca e preferimos ficar cutucando um pinguinho de ferrugem que nunca nos fez mal e provavelmente jamais fará. Amigos sabem que o importante é estar por perto quando resolvermos encerrar o ciclo, aceitarmos a ferrugem, e partirmos para a guerra contra a grande mancha!
E, finalmente, um dia a gente realiza que é momento de mudança, que do jeito que está não dá para ficar. Então ensaiamos o fechamento do ciclo, fazemos promessas e metas, e, começamos a deixar descer pelo ralo toda a água que não serve mais para nutrir qualquer coisa que viva em nós. Deixamos ir para longe a água suja, as lágrimas, os fiapos, os suores.  Às vezes a gente se arrepende e corre para tampar o ralo. Mas já é tarde e então é preciso aceitar, deixar ir, fechar o ciclo e começar tudo novamente, de alma limpa, a cada lavagem mais batida, mas pronta para uma nova jornada.  Ai de nós se não fossem os ciclos… Talvez estivéssemos ainda rodando e nos afogando nas mesmas águas.

Você tem um regador para a sua vida?

Se você fosse uma planta, qual seria? Uma orquídea? Uma espada de São Jorge? Em tudo somos capazes de ver a nossa vida.  Quem de nós pensaria em ser uma plantinha miserável? Que importância nos damos e, ao mesmo tempo nos tiramos? Em tudo está a nossa vida, nosso reflexo, a nudez embaraçosa da alma.
Desde que tenho gatos, reduzi  a porção de natureza doméstica a dois vasinhos azuis que ficam no lado externo  da janela da área, totalmente inacessíveis à curiosidade felina. E completamente isolados, como que exilados.  Vez por outra passo os olhos por eles, e, agradeço imensamente à chuva por cuidar de provê-los com um pouco de água,  pois há tempos essa tarefa não aparece na minha lista diária de afazeres. Para ser sincera, até evito.  E olhe que sempre cumpro a lista de tarefas, não deixando uma sequer a realizar. Já a lista de vontades… Acho que inconscientemente coloquei a rega dos pobres vasinhos na lista de vontades.
Bem, apesar de não dar muita bola, tenho um carinho especial por esses dois sobreviventes – isso me faz pensar que fazemos do mesmo jeito com pessoas que gostamos mas não as colocamos num plano essencial na nossa vida. Vê-las de longe (ou sequer isso) já o suficiente para crer que tudo está bem.
Os moradores dos vasos são: No primeiro, uma planta da felicidade – nunca soube se o macho ou a fêmea, e um mini cactus comprado num micro vasinho em um supermercado. Ambos chegaram junto conosco, na época da mudança, e eu sempre gostei de associar o crescimento de um ou outro às fases da vida que estava passando. Obviamente torcia apaixonadamente pela planta da felicidade, tanto porque o cactus me remete sempre às duras decisões e lutas da vida. O fato é que o danado é muito maior do que a felicidade, que sobrevive, mas sempre com um toque de fragilidade, do tipo: – vou secar a qualquer minuto, ou – se eu morrer a culpa é sua, pois não me deu nutrientes. E nisso também acho que passa a nossa vida… No segundo vaso azul mora uma flor de maio, que chegou bem depois e era enorme, mas parecia estéril. Só depois de perder muito da sua beleza e imponência foi que veio a me presentear com algumas flores cor-de-rosa. Hoje,  com somente dois segmentos do que foi aquela planta toda no passado, ela me brinda em julho (não em maio, ela conquistou essa liberdade) com duas flores, em meio aos trevos que nasceram espontaneamente e tomaram o vaso por assalto. Trevos esses que nunca me atrevo a olhar demoradamente, porque se encontro um de quatro folhas,  creio que vou exigir da vida toda a sorte que ainda não tive, ou, se tive, não consegui perceber, pois estava ocupada demais olhando o jardim da vizinha, que, obviamente,  sempre pareceu muito mais interessante. Hoje, novamente as flores de maio-julho me colocaram de volta nos eixos. Meu jardim é lindo, assim como a vida que cultivo.  Mas pode melhorar! Hoje saio para comprar um regador!
(sim, tenho fotos dos vasinhos e das flores que apareceram hoje – registrar é preciso, mas elas são ansiosas e não se demoram em cena, logo se vão, assim como alguns planos e sonhos).

Homologação

- Se a senhora estiver de acordo com os cálculos apresentados, basta assinar nas quatro vias e também neste formulário e neste e neste. Caso discorde de qualquer coisa, a assessoria jurídica do sindicato está à sua disposição para garantir os seus direitos.
- Não é necessário, eu acho que está tudo correto. Nem mesmo tinha idéia de que receberia esta quantia de indenização.
- Não se trata de indenização, senhora. Todos os ítens listados fazem parte de um conjunto de direitos conquistados com muita luta pelas classes trabalhadoras. Cá entre nós, patrão só pensa em explorar, tirar o sangue.
Nesse momento ela lembrou do seu ex-chefe, na verdade de todos os seus ex-chefes. Ela sempre guardou consigo um senso ético ímpar. Nunca falou mal de qualquer um deles, ao contrário, exaltava exaustivamente (pelo menos para quem ouvia) as qualidades de cada um, com o orgulho que só uma mãe sente. Sim, ela se sentia um pouco mãe. É certo que ela acreditava que nenhum deles sobreviveria sem ela, mas quem não acreditaria se fosse uma Mary Poppins de tailleur, colar de pérolas e crachá? Ela tinha exata noção de sua importância na vida de cada homem de quem ela cuidou, no sentido profissional, é claro.
Mas a verdade é que ela realmente não acreditava que era explorada. Ela fazia suas tarefas intermináveis por prazer, por uma louca satisfação de trabalhar como secretária executiva, e das melhores! 
Soou mal o que o representante do sindicato comentou, mas ela não encontrou motivação para discordar. Soltou aquele meio sorrisinho de canto, mais para: você é um idiota - do que para: sim, tem razão.
E ainda havia uma dúvida maior do que a sua indignação pelas palavras do Sr. Sindicato: Por que ela receberia uma indenização por ter sido tão feliz trabalhando na companhia, sob a mais profunda pressão, nível máximo de estresse, jornada média diária de 14 horas, pressão 16 x 10, dores constantes na cervical, além de administrar a insuportável política da boa vizinhança com as outras secretárias do andar? Na sua opinião, talvez ela tivesse que indenizar a todos, guardadas as proporções - as secretárias "colegas" levariam a menor parcela - por toda a experiência incrível e única que ela viveu por todos esses anos.
Enfim, a caneta caiu, ela abriu os olhos e se deu conta dos pensamentos insanos que estavam tomando forma. Pegou seu cheque administrativo, agradeceu, soltou a outra metade do sorriso e saiu. 
Agora estava homologado. Ela era uma mulher aposentada, com uma grana boa na mão, seu crachá na bolsa e nem um plano daqueles que fizera anos atrás lhe interessava no momento.
- O que você vai fazer, Catarina Aguilar? Secretaria Executiva aposentada, mulher encantadora, contadora de estórias, fazedora de  história, pessoa intrigante, curiosa, criativa, pro ativa, imperativa... Para onde vai todo esse talento e vontade? Acaso saberia fazer crochê ou tapeçaria? 
Ela não tinha a menor idéia, mas sabia que algo já estava vindo ao seu encontro. Uma buzina forte e estridente tocava insistentemente nos seus ouvidos.