domingo, maio 24

Cisco Voador

Palavras de Machado de Assis sobre o Grito do Ipiranga: " Minha opinião é que a lenda é melhor do que a história autêntica".
Eu também preferiria ter ficado com o que imaginava ser o disco voador que sobrevoou ontem a praia de Copacabana, ao invés de vê-lo.
É assustador como a nossa expectativa compõe todo o cenário, como a necessidade de esperar sempre mais de tudo nos frustra...
Corria em Copacabana um twitter instantâneo, levado adiante pelos passantes, repetido, aumentado, engraçado, debochado. E essa foi a melhor parte:
- Não é de verdade, é desenho.
- O helicóptero vai pousar na areia.
- É controlado por controle remoto.
- Tem gente dentro?
- Olhááááá.. uhuh... que lindo! Qual dos quatro é o disco, mãe? Fica quieta menina, não me desconcentra!
O criador de esculturas de areia cobriu a sua com uma canga, indignado com as pessoas que ajustavam o zoom de suas câmeras fotografando a Yemanjá de areia, sem dar uma moedinha de contribuição.
O pipoqueiro e a vendedora de tapioca estavam em êxtase! A malandragem também...
Todo mundo armado de câmeras e celulares, mas se a gente tivesse pensado um pouco mais, trocaria todo o arsenal por um binóculo.
E lá vem o disco... atrasado, tímido, nada surpreendente.. todo mundo esperando a novidade cair do céu. Ou pelo menos chegar mais perto.
Mas não tem jeito, perto mesmo é a realidade... ou um cisco no olho.





Um registro fotográfico do meu celular meia-bomba. Tem uma careca chamando mais atenção.

sexta-feira, maio 15

Caiu a 16.000a. ficha!







Quando eu era pequena, lembro de todos os dias a minha mãe ouvindo a rádio relógio enquanto cozinhava, e o locutor repetia sempre uma frase que me tirava da brincadeira, me deixava um pouco mal humorada: Cada dia que passa é um milagre que não se repete! (com aquela voz austera, sem uma poeirinha de humor). Gente, essa frase mexia comigo de um jeito! Ficava torcendo para acabar a pilha do radinho companheiro da minha mãe. Dia que chovia era um milagre também, mas não dava pra sair pra brincar. Então, milagre bem mixuruca. Dia de prova, cadê o milagre? Dia bom que passava rápido pra caramba! Milagre rapidão... E foi assim, alguns milagres eram bem questionáveis para os meus critérios, mas o homem prosseguia com a ladainha. (eu ficava imaginando como seria esse proclamador de milagres: terno cinza, bigodinho, cabelo repartido e apostava com quem quisesse, que ele tinha um dente de ouro).
Bem, passados os anos, escangalhado o radinho, transformada toda a vida, eis que me lembro hoje da voz quase hostil do homem de terno cinza em sua frase preferida: Cada dia que passa é um milagre que não se repete! E passados quase 44 anos, chego a uma conta de 16.000 milagres! Fiquei bege agora! 16.000 senhas para vivenciar esse milagre do dia, das horas, das oportunidades! Agora eu entendo e me solidarizo com o homem do dente de ouro!
Acordar é um milagre, chorar é um milagre, andar, mentalizar, conversar, coçar, contemplar, orar, sofrer, pensar, amar!!! 16.000 repetições. E quantas disperdiçadas? Melhor nem contar, nem lembrar: melhor festejar!
Foram vividos 16.000 milagres para eu entender que o homem de bigodinho e cabelo repartido
estava dando a melhor dica que uma pessoa pode apreender na jornada da vida: Um dia não faremos mais parte (materialmente) desses milagres, mas enquanto nos é permitido, vamos mandar ver!!! Somos a folha de papel, a tinta, o pincel ... e o contemplador apaixonado. Esse é o milagre!

quinta-feira, maio 14

Outros ares!


Brasilia, me apaixonei. Não sei se amaria tanto se não fosse tão feliz nesses dias. Teve chuva torrencial, teve secura na boca, teve foto de turista, teve o olhar de tudo novo. Nada é tão novo, já estava tudo lá, mas para mim, tudo foi novo e encantador. Não sei se valorizaria tanto a novidade se não estivesse tão bem acompanhada nesses dias. Teve cinema, momento zen (Clau, para quem conhece), dança de roda (um grande desafio, mãos suadas, pés trocados), rodízio de pizza, confidências, divagações, contemplações, aspirações, plano (pilotos e passageiros). Quero viver como Brasilia: organizada, florida, "enquadrada", vistosa, democrática, distante o suficiente para aproximar sem invadir. Quero ver o por do sol no pontão. Quero a companhia dessa família que me acolhe como família. Quero superar o medo de dirigir só para transitar por Brasilia. Quero mais poeira e menos mofo.
Não quero muito contato com a parte dos poderes e da política, mas me agrada estar por perto. Tudo parece mais "de verdade", embora a verdade nem sempre seja o espelho dos nossos ideais. Por enquanto, fico com os espelhos d'água.
Mas, voltando às quadras, aos pedestres, às flores, aos amigos queridos, aos lanches da tarde nas casas que visitei, às rotatórias, eixos e pontes, como foi bom conhecer Brasilia. Como foi bom experimentar o ar seco, pois nada secos estavam os corações que conhecí e admirei.

Brasilia, me espera que eu volto. Astromélias, me aguardem!

Obrigada, por tudo!